Após a vitória sobre Mark Coleman, Sérgio Cunha ligou para Maurício “Shogun” e ofereceu sua ajuda. Acostumado a trabalhar com o casca-grossa, Cunha propôs um treinamento intensivo com o campeão do Pride, e o resultado apareceu em pouco tempo. Porém, depois do nocaute sobre Chuck Liddell, o trabalho não seguirá para a próxima luta, a disputa de cinturão contra Lyoto Machida. Na entrevista exclusiva, Cunha explicou os motivos para sua saída, comentou o combate entre Shogun e Lyoto, o que ele definiu como uma “luta épica”, seus momentos mais importantes na carreira, a derrota de Wanderlei Silva para Rich Franklin e a polêmica entre Wandeco e Anderson Silva.
Como estão os treinos do Shogun para enfrentar o Lyoto Machida pelo cinturão?
Infelizmente, não chegamos a um acordo para dar continuidade ao trabalho em conjunto e, por esta questão, não estou sabendo como o Maurício está se preparando.
Por que vocês não chegaram a um novo acordo?
Devido à demora na decisão do Maurício e seu empresário se continuaríamos trabalhando juntos, tive que retornar às minhas atividades fora do Brasil e não fechamos acordo para esta luta.
Você acha que essa chance pelo cinturão foi precipitada para o Shogun, que voltou agora ao octagon?
A disputa de um título mundial, especialmente nesta categoria, é uma responsabilidade muito séria e depende de planejamento correto em todos os setores, desde o macrocíclo de treinamento, ou seja, o tempo que o atleta está em off. Este tempo deveria ser usado para melhorar e aperfeiçoar as falhas ou pontos fracos do atleta, e aí iniciou a minha discordância. Eu tentei conversar com o Maurício e seu empresário, expliquei como eu trabalho, mas, infelizmente, não chegamos a um acordo. Na luta contra o Chuck, quando liguei para o Maurício, eu lhe falei: “siga todas as minhas instruções e você vai vencer”. E também disse que assumo 50% da responsabilidade sobre o resultado. Ele fez tudo como recomendei e deu certo, assim como todos os treinadores de diferentes modalidades que coordenei durante a preparação, mas, infelizmente, para esta próxima luta não chegamos a um acordo. O Maurício é um lutador top 3 do mundo, passou por uma fase difícil de lesões, mas ele é um atleta fenomenal, um dos melhores que já treinei. Ele está aonde merece estar e vai lutar pela cinta. Grandes atletas precisam estar prontos sempre para se superar e lutar contra os melhores.
Como você acha que será essa luta?
Tem tudo para ser uma luta épica, entre dois novos atletas, completos e atualizados. Vai ser uma luta de muita estratégia e inteligência. Os fãs de MMA, com certeza, terão a oportunidade de assistir a uma luta de alto nível técnico, onde quem souber explorar o ponto fraco do adversário sairá com a vitória.
Você acredita em uma vitória do Shogun? Quais as chances de vitória dele?
Eu acredito na vitória dele, e torço muito. Neste tempo que trabalhamos juntos, eu me apeguei muito a ele, é um menino muito bom, fácil de trabalhar, talentoso e educado. Também tivemos uma química muito forte como mestre e aluno, ele se educou muito bem em outros quesitos, como alimentação, recuperação e estratégia. Contra o Chuck, fiquei com o Maurício por 70 dias, pouco tempo, porém proveitoso, pois tive a oportunidade de me dedicar 24 horas por dia nesta preparação e cuidar bem do atleta, discutindo tática e fazendo um trabalho psicológico forte, no sentido de que ele realmente soubesse que estaria pronto para a vitória depois de todo o treinamento que foi feito.
O que ele tem que fazer para bater o Lyoto?
Se eu tivesse treinando ele te responderia já, mas, nesta circunstância, fica difícil opinar, pois não sei como ele vai se preparar e como vai chegar no dia da luta, em todos os sentidos, física, psicologicamente e, principalmente, com qual estratégia. Mas, vendo de fora de uma forma neutra, cada um tem 50% de chance. Para vencer, ele vai ter que traçar um plano para anular o jogo do Lyoto. O Maurício cresceu muito como atleta e absorveu muito do meu treinamento nesta última preparação para o Chuck, pegou muito do meu jogo e está se movimentando melhor, atacando e defendendo bem, coisas que não se desaprende e ele vai usar sempre. Somando muito treinamento, estratégia e tranqüilidade, ele pode conseguir a vitória, mas tem que ser agressivo e cauteloso.
Que outros trabalhos e resultados, além do Shogun contra o Liddell, marcaram a sua carreira?
Eu tenho muitas boas lembranças, uma muito boa em particular, que foi Minotauro x Josh Barnett 2, onde fiz um trabalho de clinch e montei como Rodrigo uma estratégia para ele bater muito no Josh no clinch antes de botar pra baixo e, mesmo eu não estando presente no dia da luta, ele fez o que combinamos, foi uma vitória muito legal. Tem uma lista de lutas mais marcantes para mim, que preparei e participei como treinador. Shogun x Chuck Liddell; Wanderlei Silva x Hydehico Yoshida; Alexandre Pequeno x João Roque; Murilo Bustamante x Ryuta Sakurai; Pelé x Fabrício Monteiro; Anderson Silva x Hayato Sakurai, Zé Mário Sperry x Lee Rasdall. Hidehico Yoshida x Ogawa; Makoto Takimoto x Dong Sik Yoon; e Wanderlei Silva x Rampage Jackson 1.
O Wanderlei voltou a treinar com o Rafael Cordeiro, mas acabou perdendo para o Rich Franklin. O que você achou da luta?
Eu não assisti a luta, pois, no horário da luta, estava viajando à trabalho, mas, quando vi os comentários, tive a sensação que o Wanderlei lutou bem e já está se colocando novamente no rumo certo. Acredito muito nele e sei que ele vai melhorar algumas falhas e voltar a vencer.
O que está faltando para o Wanderlei voltar a vencer?
É complicado falar sobre isso, e muito difícil, depois de anos, o atleta mudar seu estilo e também evoluir em outras modalidades. Mas, com toda a evolução do MMA, se tornou necessário melhorar de uma forma geral, iniciando por melhorar suas deficiências e explorar outras de suas qualidades. Atualmente, muitas pessoas se intitulam treinadores e acabam atrapalhando e prejudicando os atletas. Neste nível de competição, o atleta precisa ter um head coach que seja atualizado, tenha vivenciado todo o tipo de situação no MMA e esteja adaptado e com conhecimento amplo em tudo que envolve este esporte, e que, acima de tudo, o atleta confie. Estes profissionais são raros hoje, pois o mercado de treinadores não teve tempo ainda para criar um número expressivo de treinadores de MMA completos e com experiência nas principais modalidades que são exigidas para o atleta ter uma performance adequada. Meu conselho para o Wanderlei e para todos os atletas é para ouvir o seu head coach em primeiro lugar sempre. No caso do Wanderlei, o Rafael (Cordeiro) tem esta experiência e vai fazer um grande trabalho. O Wandeco só tem 32 anos de idade e tem muita coisa para conquistar ainda.
Como você viu o desentendimento entre o Wand e o Anderson?
Na minha opinião, o MMA para todos nós é uma profissão, e devemos agir profissionalmente em todos os sentidos, fazer o melhor possível para o crescimento do esporte e para todos. Este desentendimento não vai acrescentar nada para eles e, como já fui mestre dos dois e sei que são grandes atletas, sugiro para que parem com esta bobeira e canalizem sua energia para treinar mais e melhorar dentro de suas deficiências.
Você acredita que esta luta pode acontecer?
Não. São atletas de diferentes categorias, cada um tem que lutar na sua, forte, bem alimentado e bem treinado.