Tricampeão brasileiro de Luta Olímpica, Jefferson Teixeira está dedicado a comandar os treinos de Wrestling de alguns dos melhores nomes do Vale-Tudo nacional há anos. Depois de assumir o lugar de Darrel Gohlar nos treinos da Brazilian Top Team, o casca-grossa segue treinando atletas como os irmãos Nogueira, Junior Cigano e Vitor Belfort. Em conversa com a TATAME, Jefferson falou sobre sua entrada no MMA, os treinos inesquecíveis na BTT, como com Paulão, Zé Mário, Arona e Cacareco, e o crescimento da Luta Olímpica no Brasil.
Você é uma grande fera do Wrestiling e ajuda a galera do MMA... Como você entrou no Vale-Tudo?
O MMA surgiu para mim em 2000, quando alguns atletas da Carlson foram treinar na Gama Filho e, por acaso, eles estavam tendo um treino com o professor Gilberto e gostaram muito, comentaram com o André Benkei que eles tinham um treinador de Wrestiling na Gama Filho e pediram para me chamar, e eu fui lá. Gostei e comecei no Universo Atlético em 2000, e lá foram vários atletas do Carlson treinar comigo, porque a gente não tinha condições de treinar Wrestiling... A rapaziada forte começou a frequentar, o Jucão, Buscapé, Alan Góes, Carlão Barreto...
E de lá como você foi para a BTT?
A Universo Atlético cresceu muito rápido, e acabou muito rápido também, porque não teve condições de manter esses atletas... Muitos foram para a BTT e eu fiquei desempregado. Não sei o que houve que o Darrel (Gohlar) teve que sair da BTT, iam chamar o Alejo e também não deu certo... Não sei o que papai do céu fez lá de cima que eu acabei indo pra BTT. Eu não me achava nem tão preparado para estar lá, mas, quando cheguei, vi que tinha condições de botar a galera para trabalhar, que eles precisavam do meu trabalho de verdade, que eu poderia acrescentar alguma coisa... Chegar na BTT diante de uma tropa de elite que tinha lá, só atletas de ponta, foi muito bacana, uma experiência nova e eu pude provar para mim mesmo que eu tinha condições de assumir uma equipe grande.
Quem você lembra que treinou nessa época e deu toques importantes?
A mais recente, que o Minotauro até comentou na TATAME desse mês, foi na luta contra o Cro Cop, onde eu passei uma noite inteira estudando ele, todas as suas posições, e acabou ajudando muito o Minota nessa luta. Eu tive a plena decisão dessa luta para ele botar o cara pra baixo e finalizar. Outro atleta foi o Marcelo Bocão, que usou muito uma técnica que meu treinador, na época em que competia, usou muito. O nome dele era Gilberto Arbués, e o nome da técnica ficou Arbués.
Você chegou a ser campeão brasileiro?
Em 1999, eu disputei o Brasileiro, na época da mudança do Nakamura, e fui campeão brasileiro, assim como em 2000 e 2001. Em 2001, eu já estava dando aula no Universo Atlético e puxava treino na Gama, então ficou muito difícil conciliar a carreira de atleta e treinador, e isso começou a conflitar. Não consegui mais ter bons resultados, porque também me lesionei, aí competi lesionado, porque não tinha como eu treinar, competir, dar aula e cuidar da lesão. Em 2002, fui lutar o Brasileiro e perdi na final, fiquei em segundo, e, depois, vieram os Jogos Sul Americanos, e vi que não tinha mais condições de ser treinador e atleta, isso estava me atrapalhando e eu precisava de dinheiro para sustentar a minha família. Foi quando eu tomei a decisão de virar treinador.
Quais são os atletas que você está trabalhando no CT do Minotauro?
Minotauro, Rogério, Cigano, de vez em quando o Vitor Belfort aparece para treinar, Éder Jones, Marcinho, Miltinho e os atletas que vêm de fora, de outros estados, que vem passar uma temporada e depois retornam, como o Jucão, que está agora no Rio e vem aqui treinar com a gente. Ele está nos ajudando nos treinamentos, estamos trocando informações e é sempre importante esses atletas que estão girando, nós mantermos o contato para que a gente possa fazer um trabalho direcionado e ir obtendo bons resultados.
E dos atletas que você treinou, quem você acha que, se tivesse uma boa base, poderia trazer uma medalha olímpica para o Brasil?
O Cacareco. Acho que, se ele fosse para a Luta Olímpica, ele ia levantar a modalidade aqui no Brasil. Se ele pegasse um conhecimento maior, com certeza poderia ser um campeão Pan-Americano, até mesmo Mundial, pois ele tem um potencial muito grande, absurdo. Eu felizmente tive a oportunidade e a sorte de estar na BTT e assistir grandes treinos, como com o Arona, por exemplo... Eu tenho vários treinos guardados na minha memória que são mais bacanas do que um campeonato mundial de Wrestiling ou MMA... Imagina ver o Paulão e o Arona treinando juntos... Junior (Antônio) Pezão e Paulão, imagina essa cena: Paulão pegando o Pezão e levantando, o Pezão pesando 140kg, e o Paulão só querendo treinar com ele no dia... Cacareco com Vitor Belfort, Jucão e Zé Mário...
O treino entre o Cacareco e o Arona foi impressionante, teve uma hora em que o Arona empurrou o Cacareco contra a parede e os dois batiam tão forte nas paredes que tremiam, dois monstros. Nós assistíamos o treino e ficávamos perplexos, pensando quando iríamos ter uma oportunidade de assistir isso em uma competição. O publico não teve essa oportunidade e eu, graças a Deus, assisti treinos com esses caras, Paulão, Amaury Bitetti, Carlão Barreto com Alex Negão, treino bom de se ver, dois caras grandes e com habilidades... Ver o Zé Mario treinando também era bem interessante.
Parece que está havendo uma revolução na Luta Olímpica brasileira. O que você acha desse intercambio com os cubanos?
A primeira coisa que deve ser lembrada é que o professor Pedro Gama Filho deixou uma herança muito boa quando entregou a confederação em boas mãos, com o Doca, que, junto com o Ministério dos Esportes, conseguiram ter uma boa parceria e trazer os cubanos. Eu acho muito bom, porque os cubanos que estão aí formaram campeões olímpicos desde novos e o Brasil precisa disso, para ter essa evolução, porque nós já demos um passo grande, superamos o que podíamos, agora é trazer técnicos e informações para nós treinadores aqui do Brasil, para ver como se trabalha com crianças, em escolas.
Não precisamos copiar, temos que aprender e desenvolver da nossa forma aqui no Brasil, com a nossa cultura, com o nosso clima, a forma da violência no Brasil, como é que trabalha com criança, isso nós vamos ter que adaptar. Agora, a vinda dos treinadores é excepcional e vai mudar muito. Daqui a uns dois ou três anos, nós vamos ver o nível das competições muito equilibrado em todos os estados, porque, antigamente, no Rio de Janeiro e São Paulo é que era muito forte, e, agora, eles estão vindo para varrer tudo, vai ser um rolo compressor na Luta Olímpica do Brasil.
Você acha que daqui a quanto tempo nós podemos sonhar com medalhas olímpicas?
Eu calculo de cinco a dez anos, além do feminino, onde somos uma potência. Temos a Zanza que é uma excelente atleta, tem a Joyce, a Susana... Essas atletas vão trazer experiência para as mais novas, pois sofreram muitas experiências de treinamento e essas meninas novas vão vir com tudo já mastigado, o que vai facilitar e muito o crescimento da Luta Olímpica feminina no Brasil. Os cubanos já falavam isso para mim quando estiveram no Brasil há dez anos, e acredito que, em dez anos, vamos ter um campeão mundial no Brasil.