Coluna Enciclopédia da Luta: causos de Roberto Leitão - homenagem à lenda Oswaldo Paquetá

Tatame

01/08/2016 09:31

"Coisas de antigamente..." Era mais uma daquelas segundas-feiras incríveis, quando a extinta TV Continental apresentava o programa “Heróis do Ringue”, alguns transmitidos diretamente do Carioca Esporte Clube, no Jardim Botânico, outros do Ginásio do Flamengo, na Gávea, e alguns na sede do América FC, na Rua Campo Sales, todos no Rio de Janeiro.

Este caso, se me lembro bem, foi no América, já então com a direção do empresário Domingos Carrozzine, que substituiu o Professor Hélio Gracie e seus comandados na produção do programa. O programa começava às 21h e terminava, normalmente, por volta das 23h, causando quase sempre reclamação do saudoso Professor Gilson Amado, que entrava logo depois com o seu programa educativo “Universidade sem paredes”.

Eu sempre tentava justificar os atrasos e ainda dizia: “Professor, eu acho que nós estamos entregando uma audiência razoável, é só o sr. segurar”. Daí, nasceu uma boa amizade, que culminou com meu trabalho na Engenharia da Fundação da TV Educativa. Gilson realmente não gostava do que nós fazíamos, e não entendia como eu, um professor universitário, especialmente da PUC-RJ, poderia estar metido ali. E eu realmente estava até o pescoço... Enfim, pelo menos conseguimos conviver, e nosso programa continuou sendo um sucesso de audiência.

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Em seu artigo, Roberto Leitão lembra de história envolvendo a lenda Oswaldo Paquetá (Foto Reprodução)

Naquele dia, lutava mais um atleta da Academia Gracie contra um lutador de uma das muitas academias do subúrbio, que nesta fase participavam do programa. Tínhamos que reconhecer que o Sr. Carrozzine, bonachão com seus 140 kg, era o oposto do Professor Hélio Gracie, sempre disciplinado, e havia aberto as portas para todos que quisessem participar.

Antes da luta, nas regras da chamada “Luta Livre Americana”, o verdadeiro Vale Tudo, quase sem restrições, o Carlson Gracie, maior lutador daquela geração de heróis, então, instruía seu pupilo, passando a regra adotada para 80% das lutas daquele tempo: “Fulano, você finta, dá uma “baianada” (que era o nome dado ao precursor do “double leg”, do Wrestling, ou ao Morote-gari, do Judô, em homenagem a Waldemar Santana, lutador baiano que vivia atacando as pernas) e bota ele no chão. Daí, você passa logo a guarda, coloca o joelho na barriga e não para de bater até ele desistir. Entendido? Entendido?!!!”.

Naquela época, a receita funcionava 100%, pois ninguém conhecia o “sprawl”. E não deu outra, o lutador fez exatamente o que o Mestre Carlson mandou, e em segundos estava ele massacrando seu oponente com poderosos socos no rosto, com a mão livre, sem luvas, como era costume então. Logo o outro rapaz desistiu, e o juiz (se não me falha a memória, o “careca” Jaime Ferreira) com sua voz de trovão, suspendeu a luta e declarou vencedor o atleta da Gracie. O perdedor, que era muito valente, saiu coberto de hematomas e cortes, e pior, sabendo que não receberia nenhum tostão furado, pois a luta era com bolsa total ao vencedor, coisa muito comum naquela época.

No dia seguinte, o lutador vencedor, que também era de família então modesta, foi ao escritório do empresário receber o que havia sido contratado. A quantia de Cr$ 1500,00, que na realidade era bem pouco, mas estava sendo esperada ansiosamente pela mãe do atleta, como ele lhe havia prometido. Quando o lutador estava recebendo o dinheiro, se deparou com uma jovem senhora com filhos pequenos, que se identificou: “Eu sou a esposa do “sicrano”, que lutou ontem à noite”, e continuou, “Olhe, moço, meu marido é pedreiro, nós vivemos com muita dificuldade, ele está todo machucado, não pode trabalhar e nós não temos dinheiro para comprar os remédios que o médico receitou”.

Aquilo calou fundo no coração do vencedor, que perguntou então: “Quanto a senhora precisa para os remédios?”. A resposta veio pronta: “Cr$ 1500,00!”. Estupefato, o lutador (meu amigo de muitos anos, que agora revelo). disse: “Sr. Carrozzine, dê o dinheiro para ela”, e assim foi feito. Como ele depois se justificou com a mãe dele, que esperava aquele dinheirinho, eu até hoje não sei.

Sabem quem era o lutador? Oswaldo Gomes da Rosa, o nosso querido “PAQUETÁ”, que é o mestre das filmagens, conhecido como o arquivo vivo do mundo das lutas, que tenho a honra de ser amigo. São coisas da turma antiga que precisam ser lembradas e servir de exemplo. Amigo “Paquetá”, parabéns, aonde você estiver! (Cinquenta anos atrasados...)