Coluna Enciclopédia da Luta: o início da Luta Livre e seu desenvolvimento até os dias atuais; veja

Tatame

21/06/2016 10:03

Sempre me perguntam onde, e como, a Luta (genericamente falando) nasceu. Bem, ela nasceu em cada lugar onde o “homo sapiens” (ou outro) apareceu (80. 000? 100.000 anos AC ?), e junto com ele se desenvolveu. A luta nasceu “livre”, como diz o próprio nome, sem adereços ou complementos, em consonância com a própria natureza. O homem sempre lutou, e continuará de alguma maneira lutando até o fim dos séculos.

* Coluna Enciclopédia da Luta: um pouco sobre a história de Roberto Leitão, lenda da Luta Livre

Na pré-história, os homens primitivos, em semelhança aos animais, também “brincavam” de lutar, como fazem os filhotes dos felinos ou dos símios, por exemplo. Além deste componente lúdico, existia também um aprendizado imprescindível: a sobrevivência, onde os mestres eram aqueles que os haviam gerado. Portanto, não pode haver dúvida que a Luta é o mais antigo desporto do homem, e especificamente a Luta Livre, a “mãe” de todas as outras modalidades de combate corporal.

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Hoje tida como esporte olímpico bem desenvolvido, a Luta Livre teve uma longa trajetória Foto: (Foto Gaspar Nóbrega/Inovafoto)

Assim, em cada canto da mãe-terra, a luta surgia, se adaptando às condições e costumes locais aos quais se rendia, para poder sobreviver e continuar seu inexorável destino. Eram então as chamadas “Lutas Raízes”. As características imprescindíveis a um desporto, ou seja: ser uma atividade física (1), ter um componente lúdico (2) e ter garantida a preservação de um componente didático (3) ao decorrer dos tempos, só vem a confirmar a primazia da Luta nas origens dos desportos.

A primeira menção escrita (em caracteres cuneiformes) que se tem registro, data da época dos Sumérios, aproximadamente 4000/4500 AC, onde no “Poema de Gil­gamesh”, um rei descreve uma luta em detalhes. Bem mais tarde, no antigo Egito, nas tumbas da 5ª Dinastia, 2470 AC, aparecem muitos (mais de 400) desenhos de posições de luta. E, pasmem (!), as posições mostradas são muito parecidas com as de hoje! Sempre que vejo alguma posição “nova “ hoje, procuro e me surpreendo, porque algo muito parecido está lá, naquela época. Infelizmente, lá a Luta não prosperou, porque ficou cingida apenas às guardas e à nobreza, ao contrário de outros lugares, onde o povo tinha sua participação ativa e permanente.

Outros monumentos, como os túmulos de Beni Hassam (400), Bahti III (219) e Sethi (122) também mostram muitos desenhos até hoje preservados. Como é comum no mundo inteiro, ocorreram alguns ciclos normais, envolvendo criação, desenvolvimento, apogeu e decadência. Assim, as coisas fluíram durante séculos, até nossos dias atuais. Nota-se sempre uma direção na sublimação do esporte. No início, um matava o outro, depois, na antiguidade clássica, o “polegar para cima” do Imperador salvava da morte os derrotados que se destacavam. Mais à frente, os lutadores apenas se machucavam (até seriamente), depois continuaram se machucando mais levemente, tendo surgido então, por volta de 100 AC. a “Lex Acquilia“, que obrigava o lutador a sustentar a família do outro que ele havia lesionado. Seria a primeira menção da “responsabilidade civil”, existente no Direito de hoje.

Finalmente chegamos ao MMA atual, sucesso mundial inconteste, com as proteções criadas para manter a integridade física dos participantes. Se olharmos para detalhes, na escala da “sublimação", vem perto do topo a Luta Livre tradicional, sem a pancada, e finalmente na ponta o que chamo de “prima rica“, pelo grande desenvolvimento nos dias de hoje, que não utiliza nem de pegadas para obrigar o outro a “se render”, mas usa o simples “encostamento” das espáduas no solo como uma forma estabelecida, significando o “domínio”.

O Wrestling (Luta Olímpica), com seus dois estilos, Livre e Greco Romano, é, sem dúvida, um sucesso gigantesco, com mais de dezenas de milhões (não me enganei, não ) de praticantes pelo mundo afora. Cumprimento assim a todos que, como eu, fazem parte desta comunidade, que nasceu na idade da pedra, mas se rejuvenesce a cada instante, com novas técnicas, como se tivesse sido criada ontem, graças a um forte fundamento de “inteligência“, imprescindível à sua sobrevivência. Um Abraço a todos.

Roberto Leitão