A visão dos professores: Gurgel, Alberto Ramos e Fábio Andrade analisam trajetória rumo à profissionalização

Publicado em 26/12/2019 por: Diogo Santarém
A visão dos professores: Gurgel, Alberto Ramos e Fábio Andrade analisam trajetória rumo à profissionalização Fábio Gurgel, Alberto Ramos e Fábio Andrade opinaram sobre a profissionalização do Jiu-Jitsu (Foto reprodução)

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* Do lado de fora do tatame, os professores têm um papel fundamental no desenvolvimento do Jiu-Jitsu, principalmente pela responsabilidade de formar não só atletas, mas pessoas de bem. Para entender um pouco mais sobre a visão deles a respeito da profissionalização do esporte nos últimos anos, conversamos com Fábio Gurgel, líder da Alliance, Alberto Ramos, responsável pela GFTeam Cachambi, e Fábio Andrade, professor da Nova União, três referências na arte suave.

Além de líderes em suas respectivas equipes, cabe ao professor a tarefa de moldar o aluno com as diretrizes corretas do Jiu-Jitsu, passar as técnicas, sem contar na enorme responsabilidade de lidar diariamente com personalidades, características, sonhos, metas e frustrações distintas. Por conta disso, profissionais da área – que às vezes também atuam como árbitros, atletas, etc. – costumam ter um vasto conhecimento da arte suave, com propriedade para debater o tema em questão nas páginas da TATAME #259.

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Com o passar dos anos, o Jiu-Jitsu se profissionalizou? É possível, hoje em dia, um atleta viver só do esporte? E as premiações? Nessa reportagem, você confere as diferentes opiniões dos professores Fábio Gurgel (Alliance), Alberto Ramos (GFTeam) e Fábio Andrade (Nova União), representantes de algumas das principais equipes de Jiu-Jitsu do mundo.

“Eu acho que poucos atletas conseguem (viver só do Jiu-Jitsu). Acho que hoje é uma realidade, se formos pegar não só os grandes campeões, mas os campeões que conseguem fazer um marketing que justifique, porque acho que essa troca tem que ser entendida. O cara ser campeão simplesmente pela premiação que existe, obviamente que não (se sustenta). Um Campeonato Mundial que, pela primeira vez, pagou 10 mil dólares de prêmio… Um cara não consegue viver no nível que um atleta profissional precisa com esse dinheiro. Talvez se ele lutar todos os eventos que paguem em dinheiro, ele consiga. Mas tem outras coisas agregadas a isso que fazem com que ele consiga viver de Jiu-Jitsu. O ponto é: e depois que ele não for mais atleta, o que vai fazer? Porque, diferentemente de um esporte profissional, como o Futebol ou o Basquete nos EUA, você não vai conseguir acumular nenhum patrimônio/riqueza sendo lutador de Jiu-Jitsu. Essa consciência as pessoas precisam ter. Não adianta você acelerar, se tornar o melhor lutador e não se preparar para mais nada além daquilo. A sua carreira vai acabar e o seu dinheiro também. Mais importante do que o atleta conseguir sobreviver com o dinheiro das premiações, é ele conseguir construir alguma coisa para o futuro”, opinou o “General” da Alliance, Fábio Gurgel.

“Com certeza é possível. Se o atleta se dedicar, for um cara focado, ele consegue viver do Jiu-Jitsu durante anos e bem. A gente teve recentemente o Spyder BJJ na Coreia do Sul, onde o campeão recebeu 100 mil dólares. É muito dinheiro para um GP. É coisa que, há anos, se você comentasse isso com alguém, te chamariam de maluco (risos), era inviável, e hoje em dia estamos vivendo isso e só tem a melhorar, são vários eventos que pagam bem. Tem uma molecada boa surgindo e que, certamente, vai poder viver do esporte. Também acho que o Jiu-Jitsu está tão profissionalizado que, se o cara não conseguir viver como atleta, ele consegue viver como professor também, e muito bem. É fazer o que tem que ser feito, saber gerir uma academia e estudar bastante, estar sempre disposto a evoluir”, declarou Alberto Ramos, responsável pela GFTeam Cachambi, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

“Com toda certeza, hoje em dia os atletas podem, sim, viver apenas do Jiu-Jitsu de forma digna e honesta. O trabalho é árduo e a caminhada não é fácil, como em qualquer empreitada, mas nos dias atuais já é possível afirmar que o lutador consegue viver do esporte”, afirmou Fábio Andrade, professor da Nova União e líder do projeto “Família Bangu Jiu-Jitsu”.

Mudança de panorama

Com uma longa trajetória também como competidor, Fábio Gurgel citou os principais desafios que precisava encarar para se sustentar dentro do Jiu-Jitsu naquela época, lembrando que a realidade e, principalmente, o pensamento dos atletas, eram completamente diferentes em relação ao que é visto atualmente.

“Acho que era uma realidade completamente diferente. O Jiu-Jitsu não tinha, nem de longe, a perspectiva de ser um esporte profissional e nenhum lutador competia com esse intuito de ganhar algo em termos de dinheiro. Eu fazia o esporte como fiz vários outros na minha vida, mas acabou que o Jiu-Jitsu foi o que eu escolhi para seguir, e já via naquela época a possibilidade de ter uma academia, dar aulas. Eu queria estar naquele ambiente, mas não se pensava em dinheiro como competidor. Tanto é que nem no Vale-Tudo se pensava (em dinheiro), depois que isso, obviamente, foi mudando, como a história já conta. Mas na minha época a gente não tinha nenhuma expectativa de ganhar dinheiro competindo”, falou o líder da Alliance, seguido por Alberto Ramos.

“Quando eu comecei, realmente, era muito difícil de conseguir patrocínio. O marketing era o ‘boca a boca’ que se tinha entre os amigos e ganhar os campeonatos, mas até você ganhar torneios, você precisava investir muito dinheiro. No meu caso, eu sempre trabalhei desde novo, então eu conciliava os treinos com o trabalho. Foi bastante difícil, mas junto com isso, eu tinha amigos de treino que eram empresários, e eles me ajudavam, de alguma maneira, a conseguir pagar minhas viagens e inscrições para os campeonatos. O início era muito mais complicado em relação a hoje, porque não tinha nenhuma visibilidade, principalmente nas faixas coloridas. Eu disputo torneios desde a faixa azul e era ‘brabo’ pra competir, a renda vinha por parte do meu trabalho e da ajuda desses amigos”, relembrou o professor da GFTeam, que ainda comentou sobre as principais mudanças na arte suave nos últimos anos.

“O Jiu-Jitsu cresceu muito mundialmente, e com isso, as empresas/empresários foram voltando mais os olhos para o esporte. Acho que a principal mudança que aconteceu de uns anos pra cá foi que o pessoal viu que é um esporte que pode ser altamente rentável se você souber fazer um trabalho bacana. A gente vê vários campeonatos pagando em dólar, como foi o Grand Slam da AJP, várias federações aqui no Rio que já estão pagando até o Master, que é muito desvalorizado e é tão competitivo quanto o adulto. Estão começando a injetar dinheiro em um esporte que estava esquecido. Hoje em dia, como o Jiu-Jitsu está conhecido mundialmente, acho que esse retorno financeiro para os empresários está melhorando e, consequentemente, isso ajuda os atletas”.

Receita do sucesso

À medida em que o Jiu-Jitsu evolui em diversos quesitos, cresce também o número de academias espalhadas no Brasil e no mundo, o que gera uma certa concorrência e uma disputa pelo melhor “negócio”. No entanto, Fábio Gurgel avalia que o segredo para um bom negócio não está relacionado a se preocupar com a concorrência, mas sim com a qualidade do seu próprio trabalho.

“Eu não acho que o nosso nicho seja tão repleto de concorrência assim. Eu acho que tem muita gente que não se preparou para fazer o trabalho. A quantidade de academias que se vê abrindo e fechando é bem grande. Eu não vejo nenhum sentido de investimento de autoridade num negócio totalmente privado. Acho que se você entregar um bom serviço ao seu aluno, você vai poder cobrar dele um preço justo e terá um lucro considerável. Acredito que tem que funcionar como qualquer empresa privada. Você investe, você cobra, tem lucro e reinveste esse lucro, fazendo seu negócio evoluir”.

Professor da Nova União e líder do projeto social “Família Bangu Jiu-Jitsu”, Fábio Andrade citou “outro lado” na busca pelo sucesso: “É bem simples. Tenho muito amor ao meu trabalho e meu investimento é igual pagar o estudo de um filho, meu maior lucro é ver meus alunos vencerem sem pisar em ninguém, querendo apenas o que é nosso por direito. Outra coisa que deixo bem claro é o significado da palavra ‘trabalho’, pois nada se vence sem trabalho duro”, opinou.

PROFESSORES: o Jiu-Jitsu virou profissional?

“Acho que o Jiu-Jitsu está em clara evolução, em todos os sentidos, desde a parte técnica, que evolui diariamente. Acho que a estrutura das competições é cada vez melhor, está cada vez em mais países. Você tem o Jiu-Jitsu espalhado para o mundo inteiro, o que era inimaginável se você voltar no tempo. Acho que, como negócio, o Jiu-Jitsu está sabendo como gerir seu negócio, as academias estão mais profissionais. Tenho falado com centenas de gestores de academias que já têm uma preocupação de entregar o melhor serviço, de fazer o seu negócio ser lucrativo. Acho que o Jiu-Jitsu vem evoluindo constantemente. Tem muita coisa para melhorar, obviamente. O Jiu-Jitsu pode, sim, atingir seu nível profissional, se a gente conseguir sair dessa questão do fã/praticante. Acho que esse é o desafio, mas acredito que tem um horizonte. Daqui a 20 anos, considero que o Jiu-Jitsu estará muito melhor, com certeza com seu braço profissional mais estabelecido, com as academias mais cheias, mais praticantes, e toda a indústria do Jiu-Jitsu se favorece com isso. Se compararmos com 10 anos atrás, a gente é muito melhor hoje, e se olharmos 10 anos para frente, vamos ser melhores”, Fábio Gurgel.

“Nível profissional, não. Ainda faltam coisas… São muitas federações. Nosso maior órgão não tem eleição para presidente, a regra não é clara (muito interpretativa). Acho que isso nos afasta do profissionalismo. Não existe uma ‘Lei Pelé’ para troca de equipes. Os atletas mudam de equipe e a formadora nada recebe por isso. Doping apenas para faixas-preta é desigualdade, ou faz em todos ou não faz em ninguém. Enfim, falta muita coisa para o tal profissionalismo”, Fábio Andrade.

“O nível do Jiu-Jitsu aumentou demais nos últimos anos e está sendo muito bacana vivenciar tudo isso. Ainda falta bastante coisa. Acho que as federações deveriam olhar menos para o próprio bolso e fazer mais pelos atletas. A gente vê campeonatos que não dão premiação, e você vai ver o total de atletas inscritos, tem muita grana. Com certeza eles poderiam premiar mais, incentivar mais os alunos, porque hoje em dia, o pessoal está mais atento a isso, vendo que pode ser pago, que pode ser feito coisa melhor. Se as federações não pararem para pensar um pouco no atleta – as que não fazem isso -, elas vão começar a perder espaço e isso vai ser bom. Hoje em dia, aqui no Rio, a gente tem algumas federações que pagam e eu só vejo o campeonato dessas federações crescendo. Em relação aos organizadores de evento, eu vejo que muitos se empenham bastante para dar uma boa bolsa aos atletas e espero que isso cresça cada vez mais. O Jiu-Jitsu está aumentando muito, tem muitas pessoas praticando o esporte e vendo que a arte suave pode ser algo rentável. Espero muito que, de fato, todos os atletas possam viver 100% do Jiu-Jitsu futuramente”, Alberto Ramos.

* Por Mateus Machado

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