Com larga experiência, árbitro celebra evolução do Jiu-Jitsu, mas ainda não vê profissionalização: ‘Falta valorização’

Publicado em 11/01/2020 por: Mateus Machado
Com larga experiência, árbitro celebra evolução do Jiu-Jitsu, mas ainda não vê profissionalização: ‘Falta valorização’ Árbitro em diversas competições, Alan Moraes falou sobre o Jiu-Jitsu profissional (Foto: Vitor Freitas)

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* Ao longo dos anos, o Jiu-Jitsu vem se desenvolvendo e o crescimento se reflete em diversas áreas, seja no aumento do número de praticantes, criação de novas Federações/Confederações, novos campeonatos surgindo, implementação de novas regras, o acréscimo das premiações aos campeões de alguns eventos ou torneios de lutas casadas, entre outros fatores que ajudam a valorizar cada vez mais o esporte e quem o pratica.

Outra mudança também se reflete na arbitragem, que com a questão da tecnologia e outros “mecanismos”, também acompanha o processo de evolução que toma conta da arte suave com o passar dos anos. Com todo esse crescimento, a pergunta que mais vem se tornando frequente é a seguinte: o Jiu-Jitsu, de fato, se tornou profissional? Para isso, a TATAME conversou com Alan Moraes, faixa preta 4º grau e árbitro oficial dos principais torneios relacionados à modalidade.

Ao ser questionado se o Jiu-Jitsu, com a evolução dos últimos anos, se tornou realmente profissional, Alan fez elogios ao crescimento do esporte, no entanto, adotou um tom mais “cauteloso” ao falar sobre a profissionalização do esporte, ressaltando que as autoridades precisam investir mais no esporte para que o mesmo seja visto de uma maneira mais adequada nesse sentido.

“Acho que estamos longe de um Judô, por exemplo, mas estamos à frente de quase todas artes marciais em termos de organização e em número de praticantes. O Jiu-Jitsu precisa de um olhar mais atencioso das nossas autoridades e empresários. Vários países reconhecem o Jiu-Jitsu como uma arte capaz de mudar e ajudar na evolução de seu povo. Acho que falta ainda essa valorização para que o Jiu-Jitsu ganhe mais lugar de destaque”, destacou Alan, afirmando ainda que, apesar das melhorias relacionadas à arbitragem, grande parte dos profissionais ainda não possuem uma remuneração condizente com o trabalho realizado.

“Um bom árbitro consegue fazer um salário médio se trabalhar em todos os eventos, todos os sábados e domingos de cada mês. Mas acredito que ainda estamos bem distantes de uma remuneração que condiz com a importância da profissão e, principalmente, se comparar com investimentos que muitos árbitros fazem em suas carreiras”.

Confira outros trechos da entrevista com Alan Moraes:

– Você já disputou inúmeras competições e atualmente segue muito próximo do Jiu-Jitsu. Como você avalia o desenvolvimento e a profissionalização do Jiu-Jitsu desde então? Foi de fato uma grande mudança ou ainda há muito a ser feito?

O Jiu-Jitsu em si sofreu várias mudanças. A mais importante, na minha opinião, foi o desenvolvimento e o crescimento do Jiu-Jitsu esportivo. Acho que esse foi um fator importante que ajudou a popularizar e o trouxe mais para perto da sociedade, fazendo com que não só os eventos se profissionalizassem, mas todos os profissionais envolvidos, como staff, árbitros, atletas e professores. Hoje, dentro, do que envolve o Jiu-Jitsu competitivo, temos cursos de formação e capacitação de árbitros e staff, atletas buscando profissionais mais capacitados para aumento de performance, academias com planos de aula e programas para todos os tipos de público.

– Você competiu em uma época em que premiações sequer eram cogitadas, e hoje muitas Federações e outras organizações do Jiu-Jitsu já concedem boas premiações aos atletas. Na sua opinião, hoje em dia já é possível que um atleta, seja ele faixa preta ou não, possa viver do esporte através de premiações em torneios ou patrocínios?

Acredito que já estamos bem perto disso, mesmo que seja ainda uma minoria, mas já temos atletas profissionais vivendo somente do Jiu-Jitsu. As Federações estão cada vez mais investindo, e para ter os melhores atletas em seus eventos, estão investindo com passagens e prêmios em dinheiro. Além das Federações, temos grandes eventos profissionais, que pagam grandes quantias em dinheiro. Acho que estamos caminhando para que todos os atletas possam, de fato, conseguir viver do Jiu-Jitsu. Falta mais incentivo do governo e empresas interessadas em apoiar a base do esporte.

– Como árbitro, como você encarou e lida com a constante mudança das regras em torneios nos últimos anos? O que você mais considera que mudou e influenciou no esporte através da implementação de novas regras? E quais delas você considera mais importantes terem sido implementadas?

Para trabalhar em diferentes Federações, é preciso estudar sempre, estar sempre se atualizando e se capacitando. As regras evoluíram de acordo com o surgimento de novas técnicas, que foram adaptadas primeiro para que o Jiu-Jitsu não perdesse a sua essência de combate, arte marcial, e depois como esporte. A mudança mais efetiva e que fez com que a luta se tornasse mais dinâmica foram nas penalidades. Antes se dividiam em leve, grave… Não se somavam. Hoje se divide em grave e falta de combatividade, se somando, fazendo uma luta mais dinâmica, principalmente na faixa preta, que são 10 minutos. Lembrando que a falta gravíssima leva o atleta à desclassificação direta.

– Como você avalia o nível da arbitragem atualmente? Como você procura lidar com críticas de atletas, professores e torcida sobre possíveis erros?

Acredito que hoje temos um dos melhores quadros de arbitragem, com profissionais preocupados em se capacitar, tanto com a regra quanto com as técnicas de Jiu-Jitsu. Hoje temos cursos, reuniões e vídeos para estudo. Tudo para buscar diminuir cada vez mais os erros. As críticas fazem parte da profissão, desde que sejam feitas de forma educada. Na hora, tento apenas absorver o que é lúcido e o resto tento me abster. Tentamos sempre aprender com nosso erros, porque o objetivo é não errar de novo. Todos nós temos a consciência de que uma competição envolve muito para o atleta, professor e família. Todos nós somos professores e atletas, alguns ainda competem, por isso sabemos e temos a preocupação de dar o nosso melhor para que os erros não aconteçam.

– Como é atualmente o processo para arbitrar nas principais federações e qual tipo de certificado o profissional necessita para se tornar apto a arbitrar? Quais dicas você daria para quem deseja seguir o mesmo caminho?

Praticamente todas federações hoje têm seus cursos de regras. Estudar e aprender nunca é demais. Para ser árbitro de determinada federação, você deve fazer o seu curso e ser aprovado no estágio. Não basta apenas fazer a prova e falar que já é árbitro de tal federação. Somente após todo esse processo você passará a fazer parte do quadro de arbitragem. Importante para quem hoje quer ser árbitro é que seja, no mínimo, faixa marrom, que goste de estudar Jiu-Jitsu, que tenha experiência como atleta e, principalmente, saber interpretar a regra.

– Quanto, em média, as principais Federações pagam a um árbitro? Quais são as que pagam mais?

A diária de um árbitro é de 330 reais, mas dependendo do evento, pode vir a aumentar um pouco mais. Normalmente eventos particulares de lutas casadas e GPs são os que pagam os melhores cachês.

* Por Mateus Machado

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