Vigia em hospital, lutador consegue recursos através de ‘vaquinha’ online e disputará Europeu de Jiu-Jitsu em Portugal

Publicado em 17/01/2020 por: Mateus Machado
Vigia em hospital, lutador consegue recursos através de ‘vaquinha’ online e disputará Europeu de Jiu-Jitsu em Portugal Bruno Silva realizará seu sonho de disputar o Europeu de Jiu-Jitsu em Portugal (Foto reprodução)

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* Atualmente com 36 anos, Bruno Silva iniciou no Jiu-Jitsu de forma inesperada. Se antes via o esporte de maneira distante e até mesmo com um certo “preconceito”, o incentivo do irmão e dos amigos o fez ter a dimensão exata dos benefícios da prática da arte suave para sua vida. Desde que deu o pontapé inicial, com quase 30 anos, o atleta resume como “paixão à primeira vista” sua experiência com a modalidade.

Após um início de incertezas e de uma quase desistência, Bruno persistiu e hoje começa a colher os frutos. Com títulos importantes em seu currículo, o casca-grossa está atualmente na faixa roxa e vai realizar o sonho de disputar, na próxima semana (entre os dias 20 e 26 de janeiro) o Europeu de Jiu-Jitsu da IBJJF, que acontece em Portugal. Para isso, o atleta fez uma vaquinha online, além de vender chocolates e organizar rifas/bingos para ter as condições necessárias de competir no renomado torneio.

Atleta peso-pesado da equipe Gracie Terra Resende, Bruno Silva é vigia em um hospital e concilia seu trabalho com os treinos diários. As dificuldades em conseguir recursos financeiros para competir, segundo o atleta, o fazem refletir a respeito da situação dos atletas masters na arte suave. O lutador crê que premiações deveriam ser colocadas para masters que se destacam, assim como já acontece entre os adultos.

“A gente ‘cai pra dentro’, batalhamos demais. Tem custos de passagens, hospedagem, alimentação e muitas vezes a gente tira do próprio bolso, para no final ganhar uma medalha. É por amor mesmo o que a gente faz. Isso deveria ser revisto, porque não é fácil. Eu trabalho por 12h, saio do serviço, vou direto para o treino, termino, vou para a musculação e chego em casa todo dia meia-noite. É muito complicado, para chegar na hora do campeonato e lutar por uma medalha. É complicado…”, desabafou o faixa roxa.

Conheça mais sobre a história de Bruno Silva:

– Início da trajetória no Jiu-Jitsu

Meu início no Jiu-Jitsu foi quando eu tinha 29/30 anos, peguei o finalzinho do adulto ainda. Tudo começou por ‘pilha’ do meu irmão e mais dois amigos, que já estavam praticando Jiu-Jitsu e eles começaram a dizer que era bom, enquanto eu tinha um certo ‘preconceito’ de falar que era muita ‘agarração’ e tudo mais. Um deles me falou que ia rolar um campeonato interno e me convidou para ir. Eu fui e dias depois e fui ver um treino, que era em um projeto da Prefeitura e no treino seguinte eu já fui fazer uma aula.

Desde então, não parei mais, foi amor à primeira vista. Com três meses de treino, eu fui pedir ao meu mestre para competir meu primeiro torneio (risos). Foi onde eu consegui minha primeira medalha, de bronze, que teve peso de ouro. Daí eu não parei mais, continuei competindo. No meu primeiro ano de faixa branca, eu só gastei dinheiro (risos), só apanhei. No final do ano, eu pensei em parar, achava que não era pra mim. No meu último campeonato, conquistei mais um bronze, só que agora competindo pela Federação, e isso me motivou. No meu segundo ano de branca, eu comecei a ganhar mais torneios.

– Formação da paixão pelo esporte 

Comecei a perceber isso quando fui abrindo mão de tudo, de sair, de ir em balada… Parei com isso para poder ficar no Jiu-Jitsu, e a arte suave começou a ser uma válvula de escape, porque comecei a praticar quando me separei, fiquei mal, mas a galera do Jiu-Jitsu me deu a maior força, porque além de fazer amizade, você constrói uma família. Percebi que me acalmava, e eu sou muito grato ao Jiu-Jitsu, porque pude conquistar coisas que nunca imaginei, como viagens… Foi pelo esporte que andei de avião pela primeira vez. Esse ano vivo meu melhor momento, minha melhor fase. Estou ganhando tudo o que venho disputando.

Eu tinha como objetivo ficar entre os 50 do mundo e do Brasil. Hoje eu sou o terceiro do Brasil e o 11º do mundo. As coisas aconteceram muito além do que eu imaginava e eu sou muito grato a todos que acreditaram em mim. Estou com objetivo de disputar o Europeu, em Portugal, no mês de janeiro. Estou na correria. Sou vigia em um hospital e estou fazendo vaquinha virtual, vendendo chocolate, fazendo rifa e bingo para arrecadar essa grana para viajar e competir, realizar mais um sonho dentro do Jiu-Jitsu.

– Avaliação da sua trajetória no Jiu-Jitsu

Eu avalio minha trajetória como boa, porque para quem não acreditava, tinha preconceito… Eu nunca tinha praticado nenhuma arte marcial, e quando eu comecei, nem eu acreditava que iria me tornar um profissional do esporte, porque minha vida foi fazer musculação, mas não esperava ter esse bom rendimento no Jiu-Jitsu. Eu conquistei muita coisa e eu só tenho a agradecer. Não sou patrocinado por ninguém, se eu tiver que pedir ajuda, vou pedir, e tenho muito orgulho do caminho que venho traçando. Tenho professores excelentes, que são minhas referências. Sou bicampeão estadual, conquistei o Internacional de Masters e o Campeonato Brasileiro, que é o ápice para qualquer atleta no Brasil.

– Reconhecimento para classe master

Eu avalio que os masters comparecem em maior número em relação aos adultos, então, na minha opinião, acho que as Federações deveriam rever esse conceito e colocar premiação em dinheiro para a galera do master, que é muito mais unida que os adultos, embora, futuramente, a galera do adulto venha para o master. Eles têm muito a aprender ainda em questão de união e de fortalecimento entre as categorias. Tem muita galera do adulto que não ganhou nada e tira ‘marra’ de campeão mundial, e precisam rever isso. Nós, masters, corremos muito atrás para conseguir apoio para conseguir pelo menos metade da nossa inscrição da CBJJ, que custa R$ 300 dependendo do que formos competir. Eu não vejo diferença alguma, só mesmo a idade. A gente ‘cai pra dentro’, batalhamos demais. Tem custos de passagens, hospedagem, alimentação e muitas vezes a gente tira do próprio bolso, para no final ganhar uma medalha. É por amor mesmo o que a gente faz. Isso deveria ser revisto, porque não é fácil. Eu trabalho por 12h, saio do serviço, vou direto para o treino, termino, vou para a musculação e chego em casa todo dia meia-noite. É muito complicado…

– Projeções em relação ao Jiu-Jitsu

Meus planos são de continuar competindo, sempre buscando novos desafios. Esse ano (2019) foi especial demais, estou superando minhas expectativas, indo além do que eu esperava. Para 2020, é disputar o Europeu, independentemente se vier medalha ou não, o objetivo é disputar o torneio. Devo ser graduado à faixa marrom e pretendo trabalhar ainda mais forte para alçar voos maiores. Futuramente, também quero abrir meu projeto social, porque foi dessa forma que comecei. O que eu consegui no Jiu-Jitsu, quero retribuir.

* Por Mateus Machado

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