Arte suave para mulheres: o ‘mito’ de que ficamos ‘mais duras’ ao treinar com homens; leia o artigo e opine

Publicado em 09/03/2020 por: Mateus Machado
Arte suave para mulheres: o ‘mito’ de que ficamos ‘mais duras’ ao treinar com homens; leia o artigo e opine Em seu novo artigo, Carolina Lopes fala sobre os treinos no Jiu-Jitsu feminino (Foto Luciana Alves / BJJ GIRLSMAG)

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* Inspirada pelo podcast da Mayara Munhos no “Jiu-Jitsu In Frames” (episódio 14: “Treino feminino de Jiu-Jitsu: para quê?”), resolvi falar sobre um assunto que vira e mexe surge nos debates do Jiu-Jitsu feminino: treino com homens x treino com mulheres. Hoje vemos muitas academias com turmas ou aulas femininas, o que pode funcionar muito bem como uma porta de entrada para as mulheres na arte suave. Mas, falando em meninas mais graduadas, serve também como um tipo de treino específico.

Na minha academia, aprendi que não se nega treino (se a pessoa não te desrespeitar, é óbvio). Então, antes que alguém ache que quero dizer outra coisa, vou deixar bem claro: todos os treinos são válidos, é para treinar com todo mundo e tirar o máximo de proveito disso. Mas, principalmente se você já é mais graduada (o), sabe que tem certos treinos que, em determinado momento, serão melhores para você.

Mas o que eu quero com esse texto é acabar com um mito em relação aos nossos treinos, que é: mulher que treina com homem é mais dura do que a que treina com mulher, ou treinar só com homens vai te dar mais vantagens na hora de competir contra mulheres. Não! Isso não é uma verdade absoluta.

“Ah, mas as mulheres da antiga são muito duras e treinavam só com homens”. Sim, o número de mulheres em uma mesma academia não era tão grande e muitas acabavam treinando só com homens. Mas uma coisa não tem nada a ver com a outra, e elas não são duras SÓ porque treinaram com homens. Dizer que uma mulher se dá melhor quando treina só com homens é não legitimar o treino dela. E isso é machismo.

Lutamos durante muitos anos para que fôssemos reconhecidas no esporte. A prática de certas modalidades chegou a ser proibida na própria legislação brasileira (Art. 54. “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”) e em 1965 o Conselho Nacional de Desportos deliberou, dentre outras ações, que “não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, polo aquático, rugby, halterofilismo e beisebol” para mulheres. Hoje, em pleno 2020, não é justo (e nem faz sentido) que mulheres continuem sendo colocadas de lado no esporte.

Muita gente fala: “nossa, mas se você treina só com homens, vai chegar no campeonato e destruir contra as meninas”. Qual o sentido disso? Se no campeonato eu enfrento meninas do meu peso, com estilo de jogo parecido com o meu, como vou ficar boa para isso se eu treino só com homens, que na maioria das vezes são maiores e mais pesados? Não faz sentido. Inclusive, geralmente nos treinos de competição entre os homens, quanto mais específico, melhor. Ou seja, treino dos leves, treino dos pesados. Então porque nós, mulheres, não podemos ser um treino duro umas para as outras?

Sabemos muito bem que o Jiu-Jitsu não é só força. É claro que você vai fazer força, mas na hora certa e com um objetivo. E treinar com homens é complicado nesse sentido, porque muitas vezes eles acabam ou fazendo força demais, ou “aliviando” o treino. Mulher com mulher não, é diferente. É um treino mais específico, as duas conseguem soltar mais o jogo.

Como lembrou bem a Mayara no podcast, tudo é diferente em um treino com homem ou entre mulheres: competitividade, força, técnica, intensidade, tudo. Ela até compartilhou sobre sua experiência de treinar na Atos de San Diego com mulheres da mesma graduação ou mais graduadas, e que sentiu uma dificuldade grande, que não sentia tanto no seu dia a dia de treinos.

Se eu estou treinando para um campeonato e tiver a oportunidade de rolar com outras meninas, é claro que vou querer. Eu, particularmente, tive a experiência de passar um mês treinando só com um time feminino e foi maravilhoso. Não tem tantas meninas na minha academia e quando eu ia treinar em um tatame com 15, 20 ou até mais mulheres juntas, eu ficava muito feliz. Pela oportunidade de ter tantas mulheres juntas treinando e por saber que o treino ia ser focado 100% nas nossas particularidades.

Para ser boa e dura de treino, de nada adianta só fazer força, ou só se defender de quem é mais forte. Cada treino vai te exigir de uma forma diferente e é preciso saber treinar com TODOS: homens, mulheres, crianças, menos graduados, mais velhos, mais novos, mais leves, mais pesados, enfim. Portanto, parem de achar que uma mulher é necessariamente mais dura quando treina só com homens porque é exigida mais na parte de força. Se o seu argumento não está baseado na tal da força, pior ainda, porque você está dizendo que mulheres não são tão boas ou não tem o Jiu-Jitsu bom o suficiente para treinarem duro entre si.

Parem de diminuir nosso treino, ou de falar que seremos rivais treinando juntas. Quando um grupo de mulheres descobre a força que tem ao se unir, tudo flui melhor. Somos, inclusive, melhores individualmente quando temos uma rede de apoio com outras mulheres fortes ao nosso redor. VAMOS JUNTAS!

* Por Carolina Lopes

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