Ajuda da família, preocupação e esperança: com lutas canceladas, atletas brasileiros relatam drama

Publicado em 12/04/2020 por: Mateus Machado
Ajuda da família, preocupação e esperança: com lutas canceladas, atletas brasileiros relatam drama Campeão peso-mosca do Jungle Fight, Kleydson Rodrigues falou sobre o adiamento de sua luta (Foto reprodução)

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* O atual estado de pandemia causado pelo novo coronavírus (Covid-19) afetou inúmeros setores e esportes, e obviamente, o MMA sofreu um grande impacto por conta das medidas de restrição aplicadas por diversos países como forma de evitar a disseminação do vírus. Principal organização de MMA no mundo, o UFC foi o último a suspender suas atividades, seguindo outras organizações internacionais como Bellator, ONE Championship, KSW e BRAVE Combat Federation, que também foram obrigadas a cancelar ou adiar seus eventos.

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No Brasil, o número de casos da Covid-19 cresce diariamente e existe uma grande preocupação a respeito das consequências que podem ser causadas pelo vírus a curto e a longo prazo. Em relação ao mundo das lutas, academias precisaram ser fechadas e as organizações nacionais de MMA cancelaram seus eventos faltando poucos dias para a realização dos mesmos, causando um grande prejuízo a todos os envolvidos.

Embora seja um consenso de que a saúde está em primeiro lugar, existe também uma preocupação em relação a muitos lutadores brasileiros, ainda mais tendo em vista que a maioria deles possui poucos recursos e se sustenta através de aulas em academias e das lutas em eventos nacionais.

Para tratar sobre o assunto, a TATAME conversou com lutadores de três das maiores franquias de MMA no Brasil: Jungle Fight, SFT e Thunder Fight. Todos eles tiveram seus respectivos duelos cancelados por conta do coronavírus e estavam em reta final de preparação, ou seja, o prejuízo financeiro e técnico foi grande, bem como por parte das organizações, que necessitam da realização de eventos para manter “a roda girando”.

Atual campeão peso-mosca do Jungle Fight, Kleydson Rodrigues defenderia seu título no dia 21 de março, contra Felipe Pereira, na luta principal do Jungle Fight no DAZN 103, em Manaus. A poucos dias do duelo, todavia, o atleta do Amapá foi informado que seu combate havia sido cancelado. Apesar de entender que se tratou de uma medida de combate ao coronavírus, o representante da Team Nogueira relatou sua tristeza.

“Eu tive a notícia do adiamento do evento um dia antes da minha viagem para o Amazonas, onde eu lutaria. Fiquei muito abalado por saber que eu não iria mais lutar, até porque eu já estava na reta final da perda de peso, mas entendi que o evento foi cancelado como forma de combater a disseminação do vírus. Como todo atleta, uma vez que uma luta cai, para nós causa sempre grande prejuízo, tanto financeiramente como nos objetivos e metas que planejei para esse ano. Primeiro que sou um atleta em curso, então ainda me mantenho diretamente do recurso das bolsas de cada luta e de apoios/patrocínios”.

“Moro no Amapá e por motivos financeiros, não tenho hoje como me manter no Rio de Janeiro, onde treino há quatro anos, com a minha equipe Team Nogueira. Por esses motivos, toda vez que uma luta é marcada, eu preciso me deslocar de dois a três meses antes da luta para fazer o meu camp no Rio. Dessa vez não foi diferente… Corri contra o tempo para conseguir recursos para as minhas despesas visando essa luta, como custos de passagens de ida e volta e custos locais. Como atleta de alto rendimento, os custos são bem mais difíceis, mas com apoios e patrocínios de alguns empresários e da prefeitura de minha cidade, Laranjal do Jari, conseguia me manter”, completou, antes de concluir sobre a sua situação atual:

“Como atleta independente, hoje vivo diretamente da luta, que é minha profissão, e como disse, tenho apoios e patrocínios, porém, ainda não tenho um recurso fixo que me ajude 100% com minhas despesas. E nesse momento em que estamos passando por uma crise mundial pela pandemia do coronavírus, onde todas as empresas e prefeituras foram afetadas, e eu, como dependo diretamente desses recursos, também fui muito prejudicado. Apesar disso, graças a Deus consegui voltar para o Amapá para ficar perto dos meus amigos e familiares, onde vamos unir forças para nos manter nessa fase difícil”, afirmou Kleydson.

Peso-mosca do SFT, Bruno Suema enfrentaria Bruno Gafanhoto no main event do SFT 22, que estava agendado para o dia 28 de março, no Rio de Janeiro. Seria a primeira edição da franquia na “Cidade Maravilhosa”, mas o evento precisou ser cancelado. Suema, que faria sua estreia na organização, reconheceu o esforço para manter o show e, apesar dos prejuízos, ressaltou que o adiamento foi correto.

“Realmente, foi um golpe muito forte. Eu faria a luta principal e estava pronto para entrar em ação, só nos ajustes finais para um grande show no SFT, que seria exibido ao vivo pela TV aberta (Band). Pelo o que vinha acontecendo, até previa o adiantamento, mas mesmo assim, fiquei muito triste pela situação. Foi ruim para todos, porque a organização fez de tudo para manter o evento, mas não teve jeito. No fim, o adiantamento foi o melhor a se fazer, até porque com saúde não se brinca. Além de atleta profissional, sou pai de família (minha filha, Manuela, tem dois anos) e personal trainer especializado em musculação e lutas. Com a paralisação das academias, minhas fontes de renda, do dia pra noite, ‘travaram’. Não sei como vai ser daqui pra frente, mas com fé em Deus, vamos dar a volta por cima. Só quero agradecer aos meus alunos, treinadores e minha equipe, Team Nogueira, pelo suporte e cuidado. Espero, em julho, poder voltar e dar um grande show para o público. Enquanto isso, vou focar mais nos produtos online que tenho, com acompanhamento à distância e no presencial, e esperar os próximos anúncios”, disse o peso-mosca.

Por fim, no dia 21 de março, em São Bernardo do Campo (SP), o meio-pesado Victor de Paula faria contra Denilson Carioca a atração principal do Thunder Fight 21, que assim como muitos outros eventos mundo afora, foi cancelado em razão do coronavírus. Sem saber quando poderá lutar novamente, já que não há uma previsão exata de quando os eventos nacionais poderão retomar suas atividades normais, Victor conta com o apoio de seus familiares para se manter financeiramente durante o período de quarentena.

“Fiquei sabendo do cancelamento uma semana e meia antes do evento acontecer. Estava me preparando bastante, fazendo vários treinos por dia, até mesmo no final de semana. Eu estava querendo disputar o cinturão do Thunder Fight e essa luta seria o caminho ideal para isso, mas infelizmente, o duelo caiu. Fiquei muito abalado, não só eu, como todos os atletas que estavam escalados para o evento. Eu senti bastante, porque a gente vive da luta, vivemos de dar aula, como personal, e não foi apenas o mundo da luta que sentiu esse abalo, foi num sentido geral. Tivemos que fechar a academia e hoje jogamos nas mãos de Deus para que essa situação acabe rapidamente e não demore tanto. Espero que essa luta seja remarcada, porque seria a principal de uma edição do Thunder Fight, então teria todo um gosto especial. Ainda estou abalado, agoniado por estar em casa, treinando da forma que dá. Só Deus sabe onde isso vai nos levar, mas estou tentando me manter firme para poder voltar à minha rotina”, contou o lutador, que prosseguiu:

“Aqui em casa, tem um número total de pessoas (seis pessoas), uma família. Tirando minha irmã mais nova e minha mãe, que trabalha em casa, o meu irmão, cunhada, meu pai e eu trabalhamos fora, então procuramos sempre nos ajudar e ajudar o próximo, porque é algo que afeta todo mundo. Eu só conto com a luta, que é minha paixão. Eu deixei meu trabalho com mecânica na Toyota para viver da luta e eu só dou aulas, vivo com o rendimento das lutas que eu faço e com meu trabalho como personal trainer. Quando falta para mim, meu pai, meu irmão e minha cunhada estão para ajudar, graças a Deus. Se falta para um, tem outro para ajudar, e assim vamos. Se eu morasse sozinho, por exemplo, seria muito complicado. O lutador que mora sozinho e não tem apoio está numa situação bem difícil, diria que desesperadora, acaba tendo que procurar algum outro tipo de trabalho, de rendimento, para poder se sustentar”, concluiu Victor.

* Por Mateus Machado

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