Presidente do BRAVE CF fala sobre impactos da Covid-19 e defende novo ‘sistema’ no MMA: ‘É hora de agir’

Publicado em 01/06/2020 por: Mateus Machado
Presidente do BRAVE CF fala sobre impactos da Covid-19 e defende novo ‘sistema’ no MMA: ‘É hora de agir’ Presidente do BRAVE CF, Mohammed Shahid falou sobre os impactos do coronavírus na organização (Foto: Divulgação/BRAVE CF)

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* Principal organização de MMA do Oriente Médio e uma das maiores do mundo, o BRAVE Combat Federation foi uma das primeiras franquias a se posicionar abertamente sobre a pandemia global do coronavírus e, consequentemente, adiar os eventos que estavam previstos para acontecer no primeiro semestre de 2020, no sentido de garantir a segurança dos seus atletas e demais funcionários. Com sua última edição realizada no mês de janeiro, a companhia tinha planos de promover cards em alguns países, incluindo o Brasil, que receberia o BRAVE CF 35, no dia 28 de março, em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

* BRAVE Combat Federation anuncia o adiamento de todos os seus eventos até segunda ordem; veja

Ainda sem uma previsão exata de quando voltará a realizar seus eventos, o BRAVE CF trabalha diariamente para que, em breve, seja possível o retorno. Desde seu começo, em setembro de 2016, a organização já promoveu 34 eventos em 19 países diferentes, incluindo quatro shows no Brasil. Com planos cada vez maiores de expansão para outras partes do mundo, a companhia precisou “frear” um pouco seu processo de crescimento por conta da pandemia, e para compreender melhor todo esse contexto que envolve o BRAVE, a TATAME conversou com Mohammed Shahid, presidente da franquia.

Em entrevista exclusiva, o mandatário falou sobre o impacto do adiamento dos eventos previamente agendados e de que maneira os atletas que possuem contrato com o BRAVE CF vêm sendo auxiliados. Além disso, Shahid voltou a defender a implementação de um novo sistema no MMA, diferente dos modelos de gestão que tem sido vistos nos últimos anos, e também opinou sobre o fato do UFC estar realizando eventos – foram quatro até o momento – durante a pandemia do coronavírus.

Confira a entrevista na íntegra: 

– Uma das primeiras medidas adotadas pelo BRAVE CF foi adiar os eventos que estavam marcados. Como foi para a organização ter que tomar essa atitude de forma tão abrupta? Como a franquia tem procurado auxiliar os lutadores de alguma forma?

Uma das primeiras medidas que tomamos foi adiar os eventos e isso foi, definitivamente, a coisa certa a se fazer àquela altura, porque nós não estávamos seguros sobre qual informação era correta sobre a situação toda, e nós decidimos bem cedo que nossa posição seria alinhada com as decisões de governos ao redor do planeta, e seguindo os protocolos de governos e organizações de saúde, que sempre foi um dos pontos mais importantes que fizemos, a nossa principal prioridade para segurança em geral dos atletas e de todos envolvidos na promoção de um evento. Ao mesmo tempo, o BRAVE CF e a KHK MMA engajaram bem cedo, apoiando causas relacionadas ao controle da Covid-19 em nosso país, o Reino do Bahrein, e ao redor do planeta. Fizemos o melhor em termos de campanhas, também chamando a atenção para medidas e boas práticas, focando sempre em unir as pessoas em torno de uma causa comum. Nós temos uma mensagem muito importante de que os esportes são capazes de unir o mundo e nós devemos ser capazes de agir conjuntamente, e agora é a hora de agir como um só, no mais alto dos níveis, e nós fomos capazes de fazer isso.

Em termos de assistência a atletas, isso é algo que nós temos dito desde o começo, como BRAVE CF nós não deveríamos apenas ajudar os atletas em um evento ou uma situação… Nós devemos ajudar a desenvolvê-los. Apoiar os atletas deve estar no sistema em si, essa seria a maior ajuda que podemos dar a um atleta ou a indústria como um todo. Mudar o sistema dos esportes de combate de um negócio de eventos para um negócio esportivo. Atualmente, estamos no modelo de negócio de eventos, então, nos vemos na situação em que nos encontramos hoje, na qual não há eventos e as pessoas estão com problemas para gerar renda, viver do esporte. Nós não queremos essa situação. Os esportes de combate são alguns dos mais globalizados do planeta e precisamos ser capazes de oferecê-los o que merecem. Você ouve alguns esportes falando sobre diminuições temporárias de salário e é isso que estão enfrentando, mas não o fato de não serem capazes de prover para suas famílias. Tudo isso diz respeito às falhas no sistema.

Nós não deveríamos estar aqui sentados e elogiando os eventos que acontecem ou que tentam acontecer. Nós devíamos estar realmente olhando para o fato de que, sim, os lutadores realmente precisam ser pagos, mas também a razão deles estarem em tal posição em primeiro lugar. Nós não pensamos tanto assim sobre isso. Nós devíamos mudar isso e deveríamos garantir que as mudanças aconteçam desde as raízes do esporte, já que a fonte de tudo é o sistema em si mesmo. O que fazemos em termos de colaboração com as federações nacionais, com a Federação Internacional de MMA (IMMAF), desenvolvendo o esporte desde as categorias de base, garantindo que haja um sistema em que o atleta possa virar uma super-estrela, possa atingir seus sonhos, independentemente de onde venha ou se ele é afeito ao marketing ou não. Você precisa de um sistema forte para isso. Infelizmente, ainda não estamos neste ponto. Mas estamos no processo de construí-lo. Já globalizamos mais que qualquer outra organização de MMA até hoje, desenvolvemos diversos países, suas federações e estruturas locais, levando o MMA a diversas partes do mundo. Essa foi uma das principais posições que tomamos e é algo contínuo. Hoje podemos até sentar e observar problemas individuais ou específicos, para atletas, organizações, mídia ou qualquer um, até mesmo a televisão está sofrendo com a crise da Covid-19. Mas essa não é a única coisa com a qual deveríamos nos preocupar. Devemos olhar para a raiz de tais problemas, visando soluções permanentes e não temporárias. Temos que falar em alto e bom tom sobre tais soluções permanentes e como chegar a tal posição.

– A organização trabalha com alguma data ou alguma estimativa de retorno ou isso ainda não vem sendo planejado? Financeiramente, qual é o impacto do coronavírus nos negócios e planejamentos do BRAVE para o primeiro semestre de 2020?

Pensando em datas potenciais para o BRAVE CF, nós temos diversos fatores para serem observados. Nós não estamos somente olhando para países que têm diversos atletas, mas também tentando garantir que todos possam sediar seus eventos e também competir. Nosso objetivo é fazer cada atleta no elenco competir ao longo deste ano e realizar os 12 eventos que havíamos planejado originalmente para 2020. Mesmo que restem apenas seis meses para o fim do ano, é isso que planejamos e o que estamos confiantes que vai acontecer. Vamos tentar fazer as coisas tão globalmente quanto sempre fizemos nos anos anteriores, mas, claro, tudo depende das circunstâncias. Queremos dar oportunidades para a Europa, América do Sul, Sudeste Asiático, Oriente Médio, Sul da Ásia e África de sediarem seus eventos.

Falando sobre o impacto financeiro, é claro, quer dizer, todo mundo ao redor do planeta está vivendo sob forte impacto financeiro, de uma forma ou de outra. Nós estamos fazendo o possível para garantir que isso não vai afetar nossas operações e nossos negócios, para seguir da forma mais tranquila e de acordo com o planejamento possível. Fizemos algumas coisas, pois a KHK Sports é uma empresa de escopo amplo, não só limitada a Boxe, mas também expandindo para o Boxe, os E-Sports, corridas de resistência, etc. Assim, há várias outras áreas para as quais também estamos olhando no momento. Sempre há uma indústria para a qual você pode virar sua atenção, uma área pode estar sofrendo mais que a outra, que está se desenvolvendo. E a KHK, sendo um dos grandes conglomerados de esportes, assim como um conglomerado de negócios, sempre tem condições de apoiar mais uma área ou outra. Queremos continuar indo em frente. Contanto que a visão seja alcançada, e faremos o que for possível para tal, isso é o que realmente importa. Definitivamente, algumas áreas foram mais afetadas que as outras. Porém, braços como o de E-Sports estão se desenvolvendo bastante, já que todos estão em casa competindo, esse é um cenário muito favorável pra nós. Há, é claro, muita negatividade na história, mas sempre tentamos olhar pelo lado positivo e buscar formas de contornar os eventuais desafios que enfrentamos neste primeiro semestre do ano.

– Assim como o BRAVE, outros eventos de MMA precisaram adiar ou até mesmo cancelar os seus eventos. No entanto, o UFC, mais precisamente Dana White, tentou a todo custo retomar os eventos da organização, o que pode forçar a mesma atitude por parte de outras organizações. De que maneira você enxerga isso de um modo geral, tendo em vista que estamos em um momento de pandemia?

No fim das contas, se o governo te autoriza a fazer o evento, por quê não (realizar eventos)? É uma questão de regulamentos governamentais, a nível nacional e também local. Minha principal preocupação é quando se força um evento para acontecer, os atletas, a cidade ou qualquer coisa do tipo, aí é que está o problema. Dá um tempo, né? O mundo está trabalhando junto nessa. O que estamos fazendo, enquanto promotores de esporte, não cientistas, é sentar e ver o que as pessoas competentes têm a dizer sobre isso, o que as leis e regulamentos dos governos nos dizem. Se há regulamentações e protocolos de segurança e eles dizem ‘ok, vocês estão liberados para fazer isso sob tais condições e seguindo os seguintes procedimentos’, vá em frente e faça. O único problema que tive foi que antes mesmo de qualquer coisa do tipo acontecer, já havia tentativas de forçar a realização, somente visando receita privada, direitos de TV, ingressos ou para ser o primeiro. Entende? É isso que me parece um problema. Quando há uma solução e há um sistema criado no país no qual o evento está acontecendo, há uma orientação e um sinal verde, garantindo que tudo vai acontecer de forma segura, então por que não? Nós estamos descobrindo mais e mais e tendo mais informações sobre a pandemia a cada dia, governos e cidades onde eventos podem eventualmente acontecer estão ficando mais confiantes em relação a suas regulamentações. Logo, assim que tenham estratégias de sucesso para controlar os riscos e realizar eventos esportivos, não vejo por que não, não há problema algum. Minha única objeção é com uma postura de ‘sabemos tudo’ e eu não acredito que seja a coisa certa a ser feita. Hoje, eventos esportivos estão mais inclinados a reabrir e os governos estão apoiando com legislação e regulamentação adequada, e creio que essa é a forma correta de fazer as coisas. São boas notícias para os fãs de esportes.

* Por Mateus Machado

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