Em meio às reclamações de algumas estrelas do UFC, será que os lutadores vêm sendo valorizados financeiramente?

Publicado em 04/08/2020 por: Diogo Santarém
Em meio às reclamações de algumas estrelas do UFC, será que os lutadores vêm sendo valorizados financeiramente? (Foto reprodução TATAME #262)

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Com a evolução do MMA e a propagação do esporte – e hoje entretenimento – ao redor do mundo, será que os lutadores também foram valorizados financeiramente? Diante das recentes reclamações de alguns atletas, como Jon Jones, número 1 no ranking peso-por-peso do UFC, decidimos conversar com lutadores brasileiros de diferentes organizações para entender melhor o cenário atual. Afinal de contas, as bolsas pagas acompanham o crescimento do MMA como um todo?

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À medida que o MMA se torna um esporte cada vez mais popular e global, a expectativa é que a modalidade cresça em todos os sentidos, não somente em relação aos eventos, como também no que se refere aos atletas, que são a parte principal do show. Porém, é comum acompanhar diversos lutadores, principalmente no Brasil, citando a dificuldade de viver única e exclusivamente das artes marciais mistas, tendo em vista o alto custo envolvendo treinos, equipamentos e viagens. Em paralelo a isso, as bolsas que os atletas recebem das organizações geralmente não preenchem todo o investimento feito durante a preparação.

E como os lutadores veem esse cenário? Conversamos com representantes do UFC, ACA (Absolute Championship Akhmat), LFA (Legacy Fighting Alliance) e SFT, que compartilharam suas respectivas opiniões e, além da parte salarial, falaram sobre a questão do MMA como esporte e/ou entretenimento. Veja abaixo:

Gilbert Durinho (peso-meio-médio do UFC)
“Já passou da hora de a gente ter um salário, uma coisa relacionada à aposentadoria, plano de saúde, entre outras coisas. Eu acho que a gente (lutadores) precisa se organizar, o ruim é que o MMA é um esporte muito dividido por equipes, e uma equipe é rival da outra… Mas a gente teria que ver um jeito dos empresários, treinadores, líderes de equipes e campeões se organizarem para trabalharmos juntos em prol disso, porque, como eu disse, já passou da hora de avaliarmos essa situação dos salários dos lutadores”.

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Brasileiro Gilbert Durinho disputará cinturão contra Kamaru Usman (Foto divulgação)

Cara de Sapato (peso-médio do UFC)
“É uma coisa muito complexa. Não sei exatamente qual seria a melhor opção. Claro que todo mundo gostaria de ter um salário, um rendimento mensal, é o que deixaria todo mundo mais tranquilo, porque é um fato que a gente precisa receber mais. Mas acho que o melhor mesmo seria manter da forma atual, todos recebendo bolsa por luta, só que recebendo um valor maior do que nós recebemos atualmente, porque eu acho que o UFC fica com uma fatia muito grande dessa parcela dos valores (risos)”.

Augusto Tanquinho (peso-galo do ACA)
“Acredito que o MMA hoje é um pouco dos dois, esporte e entretenimento, porque isso é preciso para vender e trazer dinheiro, mas tem muito mais a parte do esporte. O atleta, no final das contas, tem essa honra de lutador, então vemos muito mais como esporte. Pra mim, isso ainda está nivelado. Vão surgir cada vez mais atletas como Conor McGregor e Chael Sonnen, pessoas utilizando o ‘trash talk’, que falam demais, tentando aparecer e ganhar espaço na mídia para atrair atenção e dinheiro. Porém, acredito que no final das contas, a essência do combate sempre vai prevalecer, mas isso com certeza interfere no lado financeiro”.

Carlos Tizil (peso-mosca do LFA)
“Se olharmos para os tempos antigos, sempre houve essa questão de entretenimento para o público, e a questão de honra e glória para os guerreiros. Hoje em dia, na minha visão, não mudou muita coisa. A junção dos dois (esporte e entretenimento) é o grande diferencial do MMA. É um esporte muito novo, ainda precisa evoluir em muitas coisas. Com essa evolução, não só no esporte, como também dos atletas, mais à frente muitas coisas boas vão acontecer. Os eventos terão mais valor e o esporte vai crescer ainda mais. Mas ainda temos muito a aprender, principalmente em relação a outros esportes”.

Cris Cyborg (campeã peso-pena do Bellator)
“Não tem comparação (tratamento no UFC e no Bellator). Eu sou muito grata por tudo o que aconteceu no UFC, recebi um grande carinho da maioria das pessoas com quem trabalhei, mas estou muito feliz no Bellator. E como profissional, financeiramente, o que o UFC me ofereceu não foi nem perto do Bellator. É triste, porque é um evento enorme, mas que infelizmente não valoriza os seus atletas”.

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Cyborg trocou o UFC pelo Bellator e se disse realizada (Foto reprodução Instagram @criscyborg)

Cleber Sousa (ex-campeão duplo do SFT)
“Acredito que hoje, baseado no que está acontecendo, a gente vê muitos atletas, que de repente não tem a mesma qualidade técnica do que o outro que está na frente do ranking, do nada esse atleta fura a fila de todo mundo. Ele vende mais, entretém melhor o público, fala pra caramba e isso, querendo ou não, vende bem. Deixou de ser só um esporte, virou entretenimento. Nos últimos anos, entraram nessa de ser falastrão, fazer o tal ‘trash talk’ para promover a luta. A galera não liga mais de ver o número 1 contra o número 2, querem ver quem vende mais, mas são poucos os caras que sabem se vender com maestria”.

Cláudio Hannibal (peso-meio-médio do UFC)
“Com certeza MMA hoje é mais entretenimento, e o cara que tem mais seguidores no Instagram é mais valorizado. Se você vir a mídia especializada e o UFC, só comentam mais dos caras que estão no Top 5 de cada categoria, no Brasil a mídia especializada tem seus queridinhos. Eu espero que, num futuro próximo, existam mais eventos que paguem bolsas maiores. Com certeza, os lutadores deveriam receber um salário mensal, até porque se você é atleta exclusivo da organização, você tem que ter um salário, e não apenas ser pago por luta. Para o atleta ser melhor remunerado e ter melhores chances, ele tem que ser alavancado e promovido pelos canais de luta. Hoje, eu vivo ouvindo os fãs falando que na época do PRIDE era melhor… Eu discordo. Acho que os lutadores da atualidade precisam e merecem ser melhor promovidos”.

Luana Dread (peso-mosca do UFC)
“Da minha parte, acho sim que estou sendo bem remunerada, sou uma atleta nova no UFC. Quando eu faço o meu trabalho, sou paga, se não, ai é complicado. Se eu não tivesse me planejado na parte financeira, poderia ter me lascado (durante a pandemia), porque eu me machuquei no ano passado e fiquei um ano sem lutar, mas consegui me segurar. Mas nem todo mundo consegue fazer isso. Muitos lutadores não têm patrocínios, ao invés disso possuem dívidas, e todo mundo que vive do MMA sabe como isso é complicado. Lógico que seria bom ter um salário mensal, mas por enquanto essa (bolsa por luta) é a nossa realidade”.

Vicente Luque (peso-meio-médio do UFC)
“Acho que é uma situação complicada e relativa. O MMA não é só um esporte, é entretenimento, então o poder de venda interfere muito. Quem vende mais PPV, acaba sendo mais valorizado. Eu não acho que seja errado, acredito que o caminho é esse, o MMA envolve várias outras coisas, então em certas situações podemos ser mais valorizados, mas não acho que sejamos desvalorizados. Não sei se seria uma opção (salário mensal). É bem difícil justificar uma coisa assim, porque a atividade dos lutadores é bastante diferente. Ano passado eu fiz quatro lutas, enquanto alguns lutadores fizeram uma, ou nenhuma, então é complicado colocar todo mundo na mesma tabela. Na minha opinião, o modelo do UFC é o mais correto, talvez só uma distribuição maior dos lucros seria algo mais justo”.

Mackenzie Dern (peso-palha do UFC)
“Estou vendo todo mundo falando de dinheiro, que o UFC tem que pagar mais. Mas todos têm seu valor e o UFC dá a oportunidade de todos ganharem. Você só tem que provar que merece. Temos que dar um show. Todo mundo quer ver finalização, nocaute, aceitar luta em cima da hora. O UFC faz um ótimo trabalho, foi o primeiro esporte a voltar e somos os primeiros atletas ganhando dinheiro, então não sei como reclamar. Eles não têm medo de pagar. Renegociei meu contrato agora. Antes não estava 100% feliz com o antigo, mas expliquei, conversei e chegamos a um acordo. Eles estão abertos e veem potencial em cada atleta. Todos têm direito de falar, pedir, mas dizer que o UFC não paga é meio pesado”, disse Mackenzie ao site Ag Fight.

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