O que pensa quem forma? Feijão e Márcio Rodrigues ressaltam importância do diálogo, enquanto Cavaca cita contrato com atletas

Publicado em 03/11/2020 por: Diogo Santarém
O que pensa quem forma? Feijão e Márcio Rodrigues ressaltam importância do diálogo, enquanto Cavaca cita contrato com atletas Formadores de campeões, Feijão, Cavaca e Márcio Rodrigues opinaram sobre o tema (Foto reprodução)

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* Além dos líderes de grandes equipes e dos atletas, como ficam os professores de base nessa história? Para entender o lado deles, a TATAME conversou com Rodrigo Cavaca, Márcio Rodrigues e Rodrigo Feijão, responsáveis por formar diversos campeões mundiais de Jiu-Jitsu e que lidam constantemente com esse processo de troca. Na opinião dos três, o aluno deve, sim, buscar melhores oportunidades, mas sempre com o devido respeito por quem ajudou a formá-lo como atleta.

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Fundador da equipe que leva seu nome e também encarregado de um projeto social na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Márcio Rodrigues ajudou na formação de diversos atletas que, posteriormente, mudaram de equipe e sagraram-se campeões mundiais pela IBJJF na faixa-preta. Nomes como Tayane Porfírio, Lucas Hulk e Erberth Santos passaram pelas mãos do experiente professor, que acostumado a ver seus alunos alçarem voos maiores, cobra apenas transparência e tenta manter sempre uma boa relação.

“Não é fácil lidar com as mudanças (de equipe), principalmente quando você praticamente faz o atleta/aluno, deposita toda confiança, tempo, dinheiro, etc. Mas eu respeito a decisão deles, acho que o atleta tem que saber o que é melhor pra ele. Tudo é uma questão de conversa e respeito. Todos atletas devem ter a liberdade de conversar sobre isso, só não acho justo eles tomarem uma decisão sem comunicar o professor antes, como já aconteceu comigo. Tive dois alunos que receberam propostas e não pensaram duas vezes, fecharam tudo sem me comunicar e eu, particularmente, só fiquei sabendo quando eles estavam prontos para viajar”, disse Márcio, contando ainda sua relação com algumas das estrelas que já treinou.

“Tento sempre manter contato. Com alguns continuo mais próximo, com outros menos. O Lucas Hulk, por exemplo, toda vez que vem ao Rio de Janeiro faz questão de nos visitar. Com a Tayane Porfírio eu já não tenho muito contato, mas nada contra ela, só sucesso, e com o Erberth Santos são fases (risos). Já brigamos algumas vezes, tivemos nossa divergência de opinião, mas hoje estamos bem. Admiro e respeito o trabalho que eles todos estão fazendo: Lucas Hulk, Tayane, Erberth, Ana Rodrigues, Matheus Gabriel, Michael Barrabas, entre outros”.

Com Rodrigo Cavaca e Fellipe Andrew, os laços são ainda mais fortes. Treinador do hoje faixa-preta desde os 18 anos, Cavaca, líder da equipe Zenith, foi quem aconselhou Andrew a mudar para a Alliance San Diego em busca de melhores oportunidades. Mas apesar da troca, a relação entre os dois segue firme.

“Minha relação com o Fellipe continua excelente. Trouxe ele aqui para Santos (SP) com 18 anos de idade, ainda um garoto, ficou comigo cinco anos. Conheci ele como faixa-branca, mas na roxa que ele veio em definitivo. Penso que se eu não posso dar oportunidade para um atleta meu buscar os seus objetivos, também não posso impedir ele de crescer, seguir seus sonhos. No caso do Fellipe, ele tinha contrato comigo e foi tudo resolvido da melhor maneira possível, tanto no pessoal, como no profissional. E acho que esse é o pensamento, pois de outra maneira você se frustra, coloca muita coisa ruim na relação (entre aluno/professor) e isso não é interessante”.

Na visão de Cavaca, inclusive, os contratos são o futuro da arte suave. De acordo com o casca-grossa, a ferramenta legal deve ser utilizada, sim, para resguardar professores e lutadores. “O professor se sente prejudicado porque ele é amador, a maioria deles são amadores, eu também já fui, mas a partir do momento em que você se torna profissional, você entende que o cara é seu atleta, não sua família (que não se abandona). Se eu estou ajudando, o aluno tem que me dar algo em troca, e se não for dinheiro, vai assinar um contrato vinculado para que eu possa ganhar com ele no futuro. É só profissionalizar, o futuro do Jiu-Jitsu é esse, como no Futebol. Com o alto nível competitivo que temos, vamos ver cada vez mais contratos, assim como equipes maiores contratando atletas, equipes menores revelando, contratando também, e por aí vai”, projetou.

Para Rodrigo Feijão, professor responsável pelo Clube Feijão, em Maringá (PR), a situação é um pouco mais complicada. Na opinião do faixa-preta, que formou Alex Sodré, os irmãos Erich, Alex e Anderson Munis, entre outros nomes de destaque no cenário competitivo, o Jiu-Jitsu não pode deixar de ser visto como uma arte marcial.

“Contrato… E a filosofia das artes marciais, fica onde? Se daria certo ou não, só vendo, falando agora não sei dizer. Pra mim não tem contrato, e sim promessas e melhoria da situação. Acredito que não seja possível para o professor (controlar a troca de equipes), pois isso não é de agora, sempre teve, porém com menor repercussão. Já os órgãos que conduzem o esporte têm maneiras de controlar, sim. Estipular prazos e regulamentos para isso, por exemplo”, opinou Feijão, que ainda garantiu não sentir mágoa dos irmãos Munis, considerados grandes promessas do esporte e que se mudaram para o projeto Dream Art, em São Paulo.

“Normal (lidar com a saída dos irmãos Munis). Eles não foram os primeiros e não serão os últimos. Na minha academia só fica quem se sente à vontade, e preciso de pessoas com o mesmo pensamento para juntos buscarmos nossos objetivos. Cada um segue o seu caminho, sem ressentimentos espero, pelo menos da minha parte. Sinceramente, não me sinto traído (nessas situações). Prejudicado até pode ser que sim, pois pensando na equipe, estamos sempre contando com os nossos campeões”, completou.

Márcio Rodrigues também tem suas dúvidas em relação à questão contratual, assunto ainda pouco abordado no universo da arte suave, mas que merece o seu espaço: “É uma questão difícil, pois hoje em dia vem acontecendo muito essa troca de equipes. Sinceramente, não sei muito como controlar essa movimentação do mercado, mas acho que o Jiu-Jitsu está se profissionalizando cada vez mais. Com tudo que vem acontecendo no esporte, acho que seria uma ideia interessante de ser estudada (contrato com multa rescisória com os atletas). Ambos iriam ganhar com isso, e o empresário também teria uma certa segurança para investir mais no atleta”.

Fim do ‘creonte’?

Na opinião dos três professores, sim. E o termo criado de forma descontraída por Carlson Gracie anos e anos atrás, vai perdendo a sua força com o passar do tempo, pelo menos para aqueles buscam a evolução e profissionalização do Jiu-Jitsu.

“Quem forma o ‘creonte’ é o próprio treinador, que cria o aluno de maneira errada, antiga. Eu nunca me senti traído. No começo, quando me tornei faixa-preta e era líder de equipe já, sentia mais algumas perdas, mas por inexperiência. Quando você enxerga a maneira profissional de lidar com um atleta, com sua empresa, você não se sente mais traído, passa a entender que é a evolução do processo”, analisou Cavaca.

Situação mais “delicada” vive Márcio Rodrigues, que é treinador dos seus dois filhos, os faixas-preta Ygor e Yago. Porém, se for necessário eles mudarem em busca de crescimento, o pai garante total apoio: “Com certeza eu iria ficar de coração partido por não ter mais eles do meu lado, mas aceitaria e entenderia também. Como já falei algumas vezes, eles precisam ver o lado profissional, o que é o melhor para eles naquele momento. Eu fico muito feliz e realizado de ver o sucesso deles”, disse.

Feijão, por sua vez, foi direto, encerrando a discussão: “É sempre uma situação delicada (a troca de equipes), pois temos que analisar o contexto num todo, mas hoje em dia não existe mais o ‘creonte’ como era antigamente”, finalizou.

* Por Diogo Santarém

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