O que é Doença de Parkinson?

A Doença de Parkinson é a segunda doença neurodegenerativa mais comum, depois da doença de Alzheimer, com cerca de sete a dez milhões vivendo com a doença em todo o mundo. A neuropatologia da Doença de Parkinson é caracterizada, principalmente, pela depleção de dopamina na substância negra compacta, localizada nos gânglios da base. No entanto, outros sistemas neurotransmissores são afetados pela doença, levando a uma série de sintomas de desordens motoras e não motoras. Embora a causa da doença seja considerada, em geral, idiopática (doença que não tem relação com outra e que se manifesta ou existe sozinha), pesquisas recentes demonstram o envolvimento de fatores genéticos, bem como outros fatores, incluindo processos imunológicos, ambientais e relacionados à idade como possíveis causas da doença. Por isso, neste artigo, convidamos o Fisioterapeuta, Mestre em Reabilitação na Rússia e Doutorando em Ciência da Saúde na Nova Zelândia, Tone R. B. Panassollo, para falar um pouco da sua experiência treinando portadores da doença de Parkinson. 

Principais sintomas

É importante salientar que a idade é um grande indicativo de diferentes sinais e sintomas deste mal, variando em relação a incidência e intensidade em diferentes idades. Sintomas motores clássicos da doença são rigidez muscular, tremor, instabilidade postural e lentidão de movimento. Já os sintomas não motores podem ser, por exemplo, disfunção cognitiva, depressão, problemas relacionados com o sono e intestinais. Os sintomas afetam as pessoas de forma diferente, sendo que algumas pessoas com Parkinson podem não apresentar tremor, o que pelo senso comum, é a principal característica da pessoa acometida pela doença. 

Importância da atividade física

A Doença de Parkinson afeta, principalmente, pessoas com idade superior a 60 anos, entretanto, o aparecimento em idades inferiores também pode acontecer. Porém, alguns aspectos relevantes devem ser levados em consideração, e não apenas a idade. Pessoas afetadas pela doença em questão apresentam descondicionamento físico e histórico de inatividade física quando comparadas a pessoas saudáveis da mesma idade. Esse descondicionamento físico e a falta de práticas constantes de atividade física acarretam sérios problemas de saúde e qualidade de vida, além de contribuir com o surgimento de outros sinais.

Estudos de Katzel e colaboradores em 2011 apontam que há uma redução natural de 10% e 5% da capacidade aeróbica por década em indivíduos sedentários e altamente ativos, respectivamente. Pessoas com Parkinson podem ter uma redução de até 20% da capacidade aeróbica quando comparado com um grupo de mesma idade. Outro fator importante é a redução da força e potência muscular. No entanto, a diminuição da função muscular (a relação entre força e desempenho) ocorre mais rapidamente do que a perda de massa muscular. A diminuição da força muscular está associada à perda de qualidade de vida e da função cardiorrespiratória ao longo da vida adulta e em pessoas com Parkinson. Diminuição da força muscular mais acentuada em pessoas com Parkinson, permanece desconhecida e pode ter origem central ou periférica. Menor força muscular e lentidão de movimento (característica de pessoas com Parkinson) leva a uma diminuição significativa da potência muscular (força x velocidade). Exercícios de resistência muscular podem aumentar a potência e a força muscular e melhoram os sintomas motores de lentidão de movimento (bradicinesia) e não motores em pessoas com Parkinson, esse cenário proporcionado pela doença é também confirmado por Mark e colaboradores (2017).

Boxe para pessoas com Parkinson

Sempre que falamos do Boxe para pessoas com Parkinson, a primeira reação é a associação de Boxe com violência, traumas na cabeça, e poder causar Parkinson (como no caso de Muhammad Ali). Entretanto, Boxe como atividade física e não competitiva tem vários benefícios não somente para pessoas com Parkinson, mas também para a população em geral. Não existe cura para doença de Parkinson e o tratamento, principalmente com reposição dopaminérgica, alivia os sintomas, mas não impede a progressão. 

O exercício físico é uma parte essencial do gerenciamento dos sintomas motores e não motores da doença de Parkinson. Além disso, o exercício melhora a função cardiorrespiratória, a força muscular, melhora os aspectos sociais e psicológicos, e diminui os riscos de desenvolver osteoporose, doenças cardiovasculares e diabetes mellitus. Boxe em forma de atividade fitness foi desenvolvido nos Estados Unidos por ex-boxeadores como um programa de exercícios de alta intensidade. O programa consiste em Boxe “sombra”, combinado com movimentos de braço, pernas e tronco.

Uma das vantagens propostas do Boxe sobre os métodos tradicionais (exemplos: corrida, caminhada e bicicleta) de alta intensidade para pessoas com Parkinson é que o Boxe não visa apenas o sistema cardiorrespiratório, mas também envolve aspectos essenciais do controle motor, velocidade/potência, equilíbrio e função cognitiva. O Boxe é uma abordagem alternativa de exercício que também visa aumentar a mobilidade, reduzir a bradicinesia (lentidão de movimento), melhorar o equilíbrio e a marcha através de mudança de direção durante atividades que combinam movimentos dos braços, pernas e tronco. Pessoas com Parkinson têm dificuldade em iniciar movimentos que estão relacionados com a função cognitiva, que podem estar afetadas pela doença. Boxe, através de equipamento específicos como o saco de Boxe, luvas foco (aparador), pêra (speed ball) proporcionam estímulo visual, facilitando assim o início do movimento para essas pessoas. Esse estímulo visual pode contornar os gânglios basais afetados e ativar o circuito cerebelar intacto para melhorar o controle motor. Os estímulos que o Boxe traz para pessoas com Parkinson são evidenciados no estudo feito por Philippens e colaboradores em 2019.

Portadores de Parkinson em aula de Boxe na Nova Zelândia (Foto divulgação)

De acordo com o estudo realizado por Petzinger e colaboradores (2010), o Boxe é considerado um exercício que pode estimular a neuroplasticidade, que está associada à intensidade do exercício, à especificidade, à dificuldade e à complexidade da atividade. Além de ser uma atividade complexa (desafiadora), envolvendo movimentos dos membros superiores e inferiores, enquanto os participantes têm que realizar combinações.

Recomendações para portadores de Parkinson

Recomenda-se, de forma geral, que pessoas com Parkinson realizem exercícios aeróbicos três vezes por semana (30-40 min) com intensidade moderada ou vigorosa, e exercício de resistência muscular 2-3 vezes por semana, com séries variando de 8-12 repetições. Essas recomendações podem variar de acordo com a severidade da doença. Exercícios específicos para equilíbrio, estímulos cognitivos, e potência muscular também devem ser incorporados. Atividades em grupo (classes) são bem aceitas por essa população, devido ao fato de aumentar o aspecto social (interação entre os participantes). 

Para maiores informações:

Tone R. B. Panassollo

Doutorando em Ciência da Saúde (Auckland University of Technology – New Zealand)

Mestrado em Reabilitação Esportiva (Universidade Estatal de Cultura Física da Rússia)

Pós-graduação em Fisioterapia Esportiva (Escoles Universitaria Gimbernat, Barcelona)

Graduado em Fisioterapia (PUC-PR)

Assistente de pesquisa (Auckland University of Technology – New Zealand)

E-mail: tonerbpa@gmail.com

Instagram: @tone.exercise.sports.scientist

Referências:  

  1. Katzel LI, Sorkin JD, Macko RF, Smith B, Ivey FM, Shulman LM. Repeatability of aerobic capacity measurements in Parkinson disease. Medicine & Science in Sports & Exercise. 2011;43(12):2381-7.
  2. Mak MK, Wong-Yu IS, Shen X, Chung CL. Long-term effects of exercise and physical therapy in people with Parkinson disease. NATURE REVIEWS NEUROLOGY. 2017;13(11):689-703.
  3. Philippens IHCHM, Wubben JA, Franke SK, Hofman S, Langermans JAM. Involvement of the red nucleus in the compensation of parkinsonism may explain why primates can develop stable Parkinson’s disease. Scientific Reports. 2019;9(1).
  4. Petzinger GM, Fisher BE, Van Leeuwen JE, Vukovic M, Akopian G, Meshul CK, et al. Enhancing neuroplasticity in the basal ganglia: the role of exercise in Parkinson’s Disease. Mov Disord. 2010;25 Suppl 1:S141-5.

Para participar do projeto, basta entrar em contato através do e-mail abaixo e, seguindo as diretrizes especificadas, enviar o seu artigo. Não perca essa oportunidade!

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Stéfane Dias: PhD em Treinamento Desportivo – Rússia e Professor da Keiser University – USA / E-mail: mestraoatt@hotmail.com/ Instagram: https://www.instagram.com/dr.stefanedias/

Everton Bittar Oliveira: Especialista em Treinamento Desportivo e Preparador Físico da American
Top Team / E-mail: vvxtreme@gmail.com/ Instagram: https://www.instagram.com/evertonvvoliveira/

Carlos Alves: Mestre em Treinamento Desportivo e Preparador de Atletas / E-mail: contato.edufisica@hotmail.com/ Instagram: https://www.instagram.com/coach_carlosalves/

Fábio Vieira: PhD em Ciências do Movimento Humano e Professor da Universidade Brasil / E-mail: fabio.vieira@hotmail.com/ Instagram: https://www.instagram.com/fabiosfvieira/

Diego Lacerda: Mestre em Treinamento Desportivo – Rússia / E-mail: diegocslacerda@gmail.com/ Instagram: https://www.instagram.com/diegolacerdatkd/

Pavel Pashkin: Mestre em Treinamento Desportivo e Treinador Profissional de Sambo – Rússia / E-mail: fitsambo@yandex.ru/ Instagram: https://www.instagram.com/pashkinpavel