* Contratado pelo UFC em 2014 após ser campeão da terceira temporada do reality show “The Ultimate Fighter Brasil”, Antônio Cara de Sapato viu sua trajetória na organização chegar ao fim neste mês de fevereiro. A derrota sofrida para Brad Tavares, no final de janeiro, foi determinante para a decisão da companhia, tendo em vista que representou o terceiro revés seguido do brasileiro. Além de Cara de Sapato, a companhia demitiu diversos outros atletas desde o final de 2020, entre eles muitos brasileiros.

O faixa-preta de Jiu-Jitsu, que já esteve presente no Top 15 do ranking peso-médio e, ao longo do seu período na franquia, chegou a emplacar cinco vitórias em sequência, não escondeu que esperava, pelo menos, mais uma chance para reverter o atual retrospecto negativo. Em entrevista à TATAME, o lutador de 30 anos falou abertamente sobre a demissão, e foi bem claro ao afirmar que “seu perfil” não atende aos requisitos do UFC.

“Eu esperava mais uma chance, sim, até porque eu tinha mais uma luta no contrato, mas o UFC preferiu me dispensar, então faz parte. Já fui bom para o UFC em algum momento e, pelo jeito, agora já não faço parte dos planos deles, e aí optaram por isso (demissão). Parece que o UFC, de certa forma, coloca uma pressão para você ser mais que um lutador, você tem que ser ator, agir de outras formas fora do octógono. E eu não tenho muito esse perfil. O UFC foca muito no entretenimento. Eu até entendo, mas não considero que se deve focar só nisso. Tem pessoas que possuem esse perfil e acaba se tornando natural para elas, mas eu já não tenho esse perfil. Eu teria que trabalhar muito forte, fora os treinamentos e o que já tenho que fazer no dia a dia”, disse o atleta, que possui um cartel de dez vitórias e cinco derrotas no MMA profissional.

Ao longo do bate-papo, o paraibano deu mais detalhes a respeito da derrota para Brad Tavares, saída do UFC e comentou que, em paralelo com o projeto de sua academia, nos Estados Unidos, pretende seguir no MMA, revelando que está “em negociação” visando o próximo passo da sua carreira como lutador.

Veja a entrevista completa com Antônio Cara de Sapato:

– Derrota na decisão sofrida para Brad Tavares

Eu fiz o que estava na estratégia. O Brad, sem dúvida nenhuma, me surpreendeu. Em todas as minhas lutas, eu consegui derrubar meus adversários, mas o Brad defendeu muito bem as quedas. Eu entrei muitas vezes no tempo certo de queda, teve uma hora que fui de um lado a outro do octógono, e ele conseguiu defender, então eu vejo a vitória muito como mérito dele. A única coisa que eu corrigiria seria ser mais agressivo na trocação, mas como a gente focou bastante no grappling e eu estava muito confiante nas quedas, foquei na estratégia, mas infelizmente não deu certo. Foi uma luta parelha, a vitória poderia ter ido para qualquer um.

– Esperava fazer pelo menos mais uma luta?

Isso é muito relativo, vai muito do momento do UFC e do atleta. Eu esperava mais uma chance, sim, até porque eu tinha mais uma luta no contrato, mas o UFC preferiu me dispensar, então faz parte. Já fui bom para o UFC em algum momento e, pelo jeito, agora não faço parte dos planos deles, e aí optaram por isso, então tudo bem. A única coisa que discordo dessas três derrotas, eu não considero que perdi para o Uriah Hall. Tenho visto os árbitros errarem bastante ultimamente, isso me deixa um pouco angustiado. São péssimos resultados de julgamento e eu fico sem entender o que eles estão levando em consideração.

– Críticas à política do UFC nos dias atuais

Parece que o UFC, de certa forma, coloca uma pressão para você ser mais que um lutador, você tem que ser ator, agir de outras formas fora do octógono. E eu não tenho muito esse perfil. Acredito que agora eu possa entrar em um evento que tenha um perfil mais parecido com o meu, que ligue um pouco menos para isso: que seja menos entretenimento e mais esporte. Acho que o UFC tem muito disso atualmente e eu prefiro focar só nos resultados, e agora que não estou mais lá, vou tirar essa pressão da minha cabeça. Analisei também que, de certa forma, financeiramente e profissionalmente, talvez seja melhor outra organização.

O UFC foca muito no entretenimento. Eu até entendo, mas não considero que se deve focar só nisso. Tem pessoas que possuem esse perfil e acaba se tornando natural para elas, mas eu já não tenho esse perfil. Eu teria que trabalhar muito forte, fora os treinamentos e o que já tenho que fazer. O MMA é um esporte muito difícil, que exige muito da gente em todos os sentidos, e ainda ter que focar nesse lado era algo que, realmente, sugava muito minha energia. Não gosto de ‘trash talk’. Entendo que chama atenção do público, que eles gostam de lutadores que façam esse papel, mas eu não tenho esse perfil, infelizmente ou felizmente.

– Negociação com outros eventos e futuro no MMA

A gente está avaliando, vendo as melhores opções, estamos em negociação e meu empresário está à frente disso. Vem coisa boa por aí e eu tenho muitas coisas a provar e atingir dentro do MMA, e vou trabalhar duro para isso. Foram anos difíceis. Nos últimos três anos, foram três cirurgias, muitas coisas acontecendo na minha vida profissional e pessoal, e agora eu quero dar a volta por cima. Não quero deixar o esporte dessa forma, quero realizar muitas coisas e sei que tenho muito a mostrar. Quem está comigo consegue enxergar isso e foram eles que me incentivaram a dar continuidade na carreira, até porque ainda tenho 30 anos.

* Por Mateus Machado