* Com esse período de tantas restrições, acabamos tendo mais tempo para refletir, o que é bom para estudar posições e ver lutas de Jiu-Jitsu. Mas também podemos pensar no Jiu-Jitsu além dos tatames. O Jiu-Jitsu te proporciona uma filosofia de vida. Se você consegue enxergar a arte suave além dos tatames, entende o que digo. Antes de treinar, pense nesses pontos, e verá como o Jiu-Jitsu pode ser um transformador de corpo e mente, e como pode contribuir na sua vida fora dos tatames também. 

A cada treino, você evolui, e creio que uns dos principais ensinamentos e trampolim para a evolução dentro do Jiu-Jitsu e fora dos tatames também é o respeito e a humildade em relação ao oponente – e na sua vida pessoal. Você aprende a respeitar o seu adversário de treino ou na competição em que estiver. O quimono pode estar mais novo ou mais gasto, mas são apenas quimonos em momentos diferentes. Um atleta pode ser mais forte ou mais baixo, mas o Jiu-Jitsu está dentro de cada um de nós, ele se adapta às nossas limitações e qualificações. As faixas mostram o tempo que cada um treina, e não quem vai ganhar. 

Um lutador pode ser mais agressivo, outro lutador pode ser mais estrategista, mas é no decorrer da luta que o resultado se desenha e muitas vezes surpreende a todos. “Se tamanho fosse documento, o elefante seria o rei da selva”, frase muito ouvida no Jiu-Jitsu. Já vi lutadores escolherem oponentes para treinarem achando que seria um treino fácil ou pelo menos tranquilo, e tomarem um carro. Quando isso acontece, muitas vezes é por conta de uma falta de respeito e humildade, princípios básicos para todos os lutadores. 

Quantos de nós já não vimos amigos perderem por soberba ou chegar cheio de marra numa luta e tomar um carro? Você sabe que ele é melhor, mas lutou tão certo da vitória, com um ar de que finaliza quando quiser, que perdeu o foco da luta, ou melhor, nem entrou na luta, enquanto aquele outro lutador, consciente de suas condições e acreditando nas suas posições, mesmo sabedor da superioridade do seu adversário (isso pode acontecer), lutou focado, respeitando seu oponente, mais atento ao momento presente da luta e, percebendo a hora exata de uma raspagem ou finalização, acreditou que poderia vencer.  

Acredito ser um fator importante a autoconfiança, mas nunca confundir com arrogância. O lutador não pode e nem deve desrespeitar seus oponentes antes, durante ou depois de uma luta de campeonato ou em treinos. Podemos até mesmo numa luta sabermos intimamente que temos tudo para ganhar, mas respeitar o oponente é fundamental. Ser humilde é o primeiro passo para estarmos sempre aprendendo e evoluindo na nossa arte suave. Conheço lutadores que se colocam como se não tivessem mais nada para aprender. Acredito que o aprendizado é constante. Quando você está de mente vazia, ela pode ser receptiva a aprender novas posições e perceber novas possibilidades vislumbradas por outro. 

Sempre presto atenção quando alguém vem me mostrar posições, porque pode ser um aprendizado muito importante. Às vezes aquele lutador mais quieto, ou que você não conhece, pode te mostrar uma excelente técnica. Já presenciei em campeonatos vitórias de atletas que nem torcida tinham. Treine sempre com respeito, ou a lição pode vir com um gosto amargo. A luta só acaba quando o árbitro sinaliza o fim do combate ou um dos lutadores dá os três tapinhas, mas creio que são bons fundamentos para a nossa vida.

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* Por Luiz Dias