Artigo: a importância do professor entender o desenvolvimento moral da criança até a puberdade; leia mais sobre

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* O ser humano não nasce pronto, mas vai se construindo graças às experiências e às demandas internas e externas. Aliás, não apenas se constrói, mas se renova constantemente. Para Jean Piaget, “ninguém nasce moral”, e afirma que não há inteligência inata. Já para neurociência, a consciência moral depende de sistemas e áreas cerebrais específicas, para isso, utiliza testes e neuroimagem.

Piaget construiu uma teoria científica do desenvolvimento moral, explicando que durante a construção das estruturas mentais que ocorrem na interação com o meio físico e social, a criança percorre um percurso que a conduz da anomia à autonomia moral (Piaget, 1994).

Estabeleceu, portanto, três fases do desenvolvimento moral:

1° fase: Anomia, desde o nascimento até cinco anos;

2° fase: Heteronomia, que termina por volta dos noves anos;

3° fase: Autonomia.

Anomia: A criança busca a satisfação dos seus interesses individuais. Ao nascer, suas ações são induzidas por reflexos, sendo, portanto, involuntárias. O reflexo de sucção ilustra bem o período inicial desta fase, pois irá garantir a sobrevivência do bebê. Por volta do final do 3° mês de vida, o córtex cerebral mais maduro inibe os atos reflexos e a criança começa a apresentar respostas voluntárias, estabelecendo relações de causa e efeito. É durante este período que as regiões sensoriais (visual, auditiva, tátil etc.) têm seu amadurecimento acelerado, permitindo à criança integrar os estímulos do ambiente e gerar respostas adequadas. A percepção do mundo permite a percepção de regras. A criança aprende que, ao chorar, a mãe irá ajudá-la, pegá-la no colo e alimentá-la. 

Durante a maior parte do 1° ano de vida, o número de sinapses aumenta muito, e estabelecem-se conexões mais sólidas entre várias partes do cérebro, como os lobos parietal, occipital, frontal e os centros motores específicos do cérebro. Essas mudanças permitem ao bebê observar mais acuradamente as relações entre causa e efeito, relacionando eventos externos ao conhecimento prévio armazenado na memória (Mussen etal., 2001).

Nota: Graças aos recursos da neurociência e suas descobertas, podemos afirmar que, ao nascer, a criança possui cerca de 100 bilhões de neurônios, que gradativamente formam sinapses e circuitos neurais. O cérebro infantil tem uma quantidade excessiva de sinapses; esta exuberância sináptica continua até o início da adolescência, quando então começa a ser reduzida por eventos regressivos (Pinheiro, 2007).

Para Piaget (1994), o propósito das ações e do comportamento da criança nessa fase é adaptar-se ao mundo real. Com a ampliação do raio social, a criança percebe que as brincadeiras têm normas, e passa a segui-las mesmo sem uma reflexão de seus significados.

Mudanças no comportamento durante o 2° e o 3° ano de vida sugerem desenvolvimento de capacidades intelectuais, que permitem às crianças começarem a absorver os padrões morais da sociedade em que vivem. Já demonstram preocupações com a desaprovação dos pais, graças a representações mentais do que é certo e errado.

Heteronomia: Nesta 2°fase, a criança percebe que se não cumprir as regras do ambiente, será punida. O comportamento é regido por leis externas, impostas sem elaboração consciente. Sua maior ou menor responsabilidade pelas ações é dada pelas consequências objetivas, e não pelas intenções. As regras são impostas pelas figuras de autoridade, e para a criança são imutáveis.  

Autonomia: É quando a criança adquire a consciência moral. Suas ações e comportamentos continuam os mesmos na ausência da figura de autoridade. A responsabilidade pelos atos é proporcional à intenção dos mesmos, e não apenas às suas consequências. A criança percebe que as regras sociais derivam de convenções, e que podem ser mudadas havendo consenso.

Segundo Piaget (1994), a cooperação e o respeito mútuo são aspectos sem os quais não há constituição da autonomia. Esse estágio do desenvolvimento moral completa-se apenas no final da adolescência e início da vida adulta, aumentando o refinamento sobre as questões e atos morais.

É durante o desenvolvimento da autonomia que a maturação cerebral atinge seu ápice, sendo o lobo frontal decisivo na formação do caráter moral. O grande salto evolucionista que tornou o homem superior às demais espécies foi o desenvolvimento dos lobos frontal e pré-frontal. É nesta região que as funções nobres como planejamento e julgamento ocorrem, estando relacionadas à construção de conceitos de valores. Também é onde fazemos o processamento do que é certo e do que é errado, ou seja, da nossa moral. Quando ocorrem lesões nessa região, o indivíduo perde a capacidade de tomar decisões.

Novas funções relacionadas aos lobos frontais, como empatia, humor e julgamento moral têm sido descobertas pela ressonância magnética funcional  (Mendonça, 2009). Esta região do cérebro foi implicada em comportamentos cognitivos complexos do planejamento, em expressão da personalidade e no comportamento social correto moderado. Segundo Mendes e Melo (2011), os lobos frontais são os últimos a serem mielinizados, completando-se por volta de 20 a 25 anos. 

As famílias, as escolas e os professores de artes marciais devem guiar a criança a chegar à autonomia moral. As regras bem estabelecidas e seguidas por ambas as partes, os modelos de comportamento e a reflexão sobre as ações irão proporcionar ao indivíduo o pleno desenvolvimento de sua racionalidade. 

Referências:

  • PIAGET, J. O Juízo Moral na Criança. 3. Ed. São Paulo: Summus, 1994.
  • LENT, R. Cem Bilhões de Neurônios: conceitos fundamentais de neurociência. São Paulo: Atheneu, 2005.
  •  ZIMOG, L. Mentes que Aprendem: um ensaio sobre a prontidão para aprendizagem/Susan Zimog Leibig, (organizadora). São Paulo: All Print Editora, 2011. Prontidão Moral, cap. 7 – autoras: Denise Pirillo Nicida e Luiz Felippe Motta Ramos – Pag. 118, 119,120.
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Quem sou eu? Mônica de Paula Silva, também conhecida como Monica Lambiasi, é graduada em Pedagogia desde 2004. Concursada pela Prefeitura de Embu Guaçu – SP, atua há 13 anos como psicopedagoga clínica, área na qual é pós-graduada desde 2006. Em 2008 concluiu pós-graduação em Didática Superior, e em 2009 concluiu pós-graduação em Educação Especial e Educação Inclusiva. Já em 2017 concluiu pós-graduação em neuropsicopedagoga, e atualmente estuda psicanálise e neurociência. Também é escritora.

Contatos: WhatsApp (11) 99763-1603 / Instagram: @lambiazi03

* Por Mônica de Paula Silva

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