Casos de abuso sexual envolvendo a Fight Sports são expostos; Cyborg e Vagner se pronunciam a respeito

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Nota da redação: a TATAME reitera que abuso e assédio sexual, além de crimes, estão em total desacordo com os valores das artes marciais e, desta maneira, se solidariza com as vítimas. Se você ou alguém que você conhece foi abusado sexualmente, peça ajuda às autoridades legais. Além disso, para mais informações, conheça o trabalho realizado pela CDMJJ (Comissão de Direito das Mulheres no Jiu-Jitsu), uma ONG sem fins lucrativos que promove a observância e defesa dos direitos das mulheres na arte suave.

Uma das principais academias de Jiu-Jitsu do mundo, com sede em vários países, a Fight Sports – que é comandada por Roberto Cyborg – se viu diante de um escândalo sem precedentes em sua história nos últimos dias com múltiplos casos de assédio sexual e abuso sexual contra mulheres que pertenciam ao time.

Em março de 2018, Marcel Gonçalves, então faixa-preta da equipe e instrutor da filial localizada em Naples, na Flórida (EUA), foi preso na Califórnia, quando se preparava para competir, e acusado de abuso sexual por uma jovem de 17 anos. O lutador, que vive nos Estados Unidos há mais de dez anos, acabou preso e confessou o crime. Ele teria dito aos policiais que “não sabia o que havia de errado com ele”, segundo o site Brazilian Times. O Boletim de Ocorrência da época informou que o professor mantinha relações desde 2017.

Nos últimos dias, o caso voltou à tona quando Mo Jassim, organizador do ADCC, maior torneio de luta agarrada do mundo, publicou nas redes sociais que conversou com o pai da vítima. O dirigente disse que “ficou em choque” com os relatos e que a família confiava em Marcel – que já ensinava Jiu-Jitsu a menina há três anos. Três dias antes de a jovem completar 16 anos, aconteceu o primeiro ato sexual, segundo Mo.

O organizador do ADCC ainda acusou Cyborg e Vagner Rocha – outra referência importante do time e que tem uma filial também na Flórida -, de manter Marcel treinando e participando de festividades da Fight Sports. Cyborg, à época, chegou a declarar que o compatriota estava banido e não fazia parte da equipe.

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Marcel Gonçalves foi preso em 2018, nos Estados Unidos

Posteriormente, foram tornadas públicas outras situações de abuso sexual no time, o que levou Cyborg a divulgar, em seu perfil pessoal, um comunicado adotando “tolerância zero” e a criação de um gabinete. Uma jovem americana de 17 anos também comentou ter sofrido assédio de um outro faixa-preta da Fight Sports de Miami, quando tinha 16 anos (é possível ler todo o contexto da história na publicação de Mo Jassim, em inglês, AQUI). Confira, abaixo, o relato de uma ex-atleta sobre ter sido abusada em um camp em Bonito (MS).

Fui abusada sexualmente por um faixa-azul da Fight Sports durante um camp de Jiu-Jitsu em Bonito (MS). Nem me lembro mais do nome dele, porque queria apagar tudo da minha memória. Ele tinha pedido uma cópia da chave do meu quarto na recepção do hotel e tentou me estuprar enquanto eu dormia. Felizmente, acordei a tempo, ele tirou minha calcinha e ficou nu em cima de mim, me beijando e tentando me penetrar. Gritei e liguei para a recepção. Fiz um grande escândalo e mandei chamar a polícia. (Roberto) Cyborg veio me pedir para não prestar queixa. A polícia militar chegou, olhou para as câmeras e levou o agressor. Fui registrar uma reclamação à polícia, porque o Cyborg veio gritar comigo, dizendo que por minha causa, todo o camp de Jiu-Jitsu estava ferrado. Ele falou com o meu treinador na época, Mohamed Targuisti, que tem a licença de Fight Sports em Casablanca (Marrocos), um bandido. Disseram-me que como não houve penetração, não era estupro…”, afirmou ela em um relato enviado à página do bjjworld.tv.

> Veja na íntegra, AQUI

Testemunha no caso do camp da Fight Sports em Bonito, no Mato Grosso do Sul, Ricardo Rezende procurou o perfil de Mo Jassim e enviou um relato do que presenciou à época. Para saber mais a respeito, clique AQUI.

Era uma festa sem fim, bebendo todos os dias, e um dia eles beberam demais, até o bar fechar, e continuaram indo a diferentes lugares para beber, até que já não havia mais lugar algum vendendo bebida alcoólica. Ele (faixa-azul que tentou abusar da vítima) pediu na recepção por uma chave que não era a do quarto dele, e como nós estávamos em um grupo grande de pessoas, o pessoal da recepção confiou nele e entregou a tal chave.

Ele tirou as roupas dela e tentou estuprá-la, enquanto ela estava dormindo. Pouco depois, todo mundo já estava enlouquecendo, dizendo que o Paulo ia para a cadeia. E eles fizeram parecer com que ela (vítima) fosse o problema, como se todo mundo tivesse que abandonar o camp por causa disso e ela levou a culpa por estragar a viagem. Eles conseguiram entrar em contato com alguém poderoso de lá (Bonito) que disse: ‘Vocês terão que deixar a cidade depois que o Paulo for solto’. E, então, o Paulo deixou a cidade. Eu perguntei à ela se estava bem e que se ela precisasse de qualquer coisa, estaria lá”.

Cyborg se pronuncia sobre

Líder da Fight Sports e um dos grandes nomes do Jiu-Jitsu mundial, Roberto Cyborg vem sendo um dos alvos nas redes sociais. Ele usou um comunicado no Instagram para se manifestar a respeito (você pode ler abaixo, em inglês). O lutador citou que não tomou as melhores decisões para lidar com o assunto na época, mas garantiu “tolerância zero” caso se repita algo semelhante e anunciou a criação de um comitê interno sobre o tema. Cyborg ainda falou com a reportagem TATAME em declarações exclusivas.

O brasileiro comentou sua relação com Marcel Gonçalves e a família, já que é padrinho do filho do acusado, a retirada da faixa preta dele, as denúncias contra a Fight Sports e também os comentários de Mo Jassim, organizador do ADCC, nas suas redes sociais. Confira abaixo a entrevista na íntegra com o líder da FS:

– Em 2018, quando Marcel Gonçalves foi preso, a Fight Sports anunciou a saída dele. No entanto, há relatos que ele seguia participando de treinos e festas na equipe. Isso procede? Como ficou a relação de vocês após essa prisão?

No momento em que soube da prisão, a Fight Sports emitiu um comunicado condenando as supostas ações. Naquele momento, o Sr. Gonçalves estava proibido de lecionar em qualquer uma de nossas escolas. Sua esposa e filho foram autorizados a permanecer em nossa equipe porque eu não concordei em condená-los pelas alegadas ações dele. Desde então, ele só esteve conosco algumas vezes na presença de sua família.

– A faixa preta dele realmente foi tirada?

Tirei a faixa preta do Fight Sports e solicitei à IBJJF (International Brazilian Jiu-Jitsu Federation) que rescindisse a condição de faixa preta para que ele não pudesse competir sob nossa bandeira novamente.

– O fato de você ser padrinho do filho dele, teve um impacto maior para você toda essa história?

Essas alegações foram especialmente difíceis de engolir porque sou padrinho de seu filho. Não desculpo, tolero ou aceito o comportamento alegado que é contrário às minhas crenças e àqueles que minha família e o Jiu-Jitsu representam.

– No comunicado divulgado nas redes, você disse que não se dirigiu da melhor forma às vítimas, por ser uma situação nova. O que você acha que errou e como pretende agir daqui pra frente?

Consulte minha declaração pública anterior em 13 de agosto (você pode ler na íntegra, em inglês, AQUI). Contratamos terceiros para nos auxiliar no desenvolvimento dos programas previamente delineados.

– Quantos casos exatamente de abuso sexual aconteceram na academia?

A Fights Sports está conduzindo uma revisão completa da situação, incluindo quaisquer incidentes que ocorreram dentro de nossa rede de afiliados para tomar as medidas adequadas para erradicar este comportamento desonroso.

– No comunicado oficial, você disse que a FS adotou um modelo de tolerância zero e terá um comitê exclusivo para isso. Olhando para tudo o que aconteceu, houve negligência por parte da Fight Sport?

Não. Não possuímos, operamos ou controlamos nenhuma das academias que competem sob a bandeira da Fight Sports, exceto a academia da sede em Miami, onde nunca ocorreu um incidente dessa natureza. Nós nos esforçamos para apoiar as academias que erguem nossa bandeira e também todas as pessoas que fazem parte de nossa comunidade, mas esse tipo de suposto comportamento não será tolerado dentro de nossa organização ou do esporte Jiu-Jitsu. Com a ajuda de consultores externos, estamos trabalhando para estabelecer as melhores práticas e procedimentos para o bem de toda a comunidade.

– Mo Jassim, organizador do ADCC, conversou com o pai de uma das vítimas e vem fazendo diversas postagens nas redes sociais sobre o tema. Você disse no comunicado que gostaria de um debate aberto e amplo com ele para tratar isso de um modo geral. Como você tem visto esse posicionamento dele?

A Fights Sports espera abordar essas questões no momento apropriado e em um fórum apropriado. Infelizmente, o Sr. Mo Jassim ainda não concordou em trabalhar conosco para elevar a discussão sobre um assunto tão importante. Para nós, trata-se de trabalhar diligentemente para realizar a mudança que nosso esporte exige. Os membros da nossa comunidade merecem respeito e um ambiente seguro, esta é uma oportunidade de evitar que essas situações continuem em qualquer lugar. Nós da Fights Sports estamos tomando medidas para erradicar esses comportamentos, estabelecendo políticas claras para nossa comunidade seguir por meio de vigilância, tecnologia, procedimentos de proteção e protocolos para relatar este tipo de incidentes.

– Um relato de uma mulher sobre ter tido o quarto invadido por um faixa-azul na época, que tentou estuprá-la. No relato, ela disse que a equipe não deu a ela o suporte necessário. O que aconteceu neste camp em Bonito e qual ação foi tomada pela Fight Sports?

As denúncias relacionadas ao evento do campo de treinamento em Bonito em 2016 foram investigadas pelas autoridades brasileiras. Em nenhum momento interferi ou me envolvi na investigação. Eu entendo que várias pessoas estiveram presentes no evento, que ainda não fizeram uma declaração, mas tiveram conhecimento de primeira mão da situação e podem, estão dispostas a comentar. Quem me conhece sabe que trato a todos com a mesma dignidade e respeito.

 


Vagner explica sua versão

Vagner Rocha, que foi acusado por Mo Jassim de receber Marcel Gonçalves em sua academia de forma “escondida”, fez um longo comunicado em um vídeo publicado no Instagram (assista em inglês, AQUI). Abaixo, confira na íntegra a transcrição deste vídeo. O faixa-preta declarou apoio às vítimas e afirmou que não deveria ter mantido relação com Marcel após as acusações, entretanto, garantiu que nada aconteceu em sua academia neste período com os atletas e que não tem contato com o compatriota há meses.

“Em consideração às alegações recentes, eu queria abordar, falar abertamente e publicamente sobre as últimas revelações de abuso sexual na comunidade do Jiu-Jitsu, as acusações contra Fight Sports, a associação da Vagner Rocha Martial Arts e minha relação com o Marcel Gonçalves. Permita-me começar expressando minhas mais profundas e sinceras condolências às vítimas e suas famílias. Como pai de família, ou seja, pai de uma filha que cresceu na comunidade do Jiu-Jitsu, é o pior pesadelo de todos os pais ver seus filhos suportarem o que aconteceu com as vítimas ao apresentarem essas experiências terríveis.

Os pais trazem seus filhos para a academia de artes marciais com o propósito de aprender defesa pessoal para se proteger, e é por isso que é especialmente desanimador quando o abuso acontece nesses ambientes. Eu não sabia e estou em choque com as novas histórias que vieram à tona nos últimos dias. Lamento, sinceramente, o que aconteceu com essas vítimas e não consigo imaginar a dor que elas devem estar sentindo. No entanto, elogio a bravura dessas vítimas em se apresentar e compartilhar suas histórias. As vítimas devem ser capazes de se manifestar e contar abertamente o que aconteceu.

Quanto ao Marcel Gonçalves, admito que deveria ter conduzido melhor a questão. E, em retrospecto, eu deveria ter rompido os laços e não ter mais associação com ele. Com relação aos rumores e especulações, gostaria de esclarecer o assunto com seu envolvimento extremamente limitado com a VRMA, minha escola. Marcel nunca teve permissão para ser um instrutor na minha escola. E ele também não teve nenhum envolvimento com as crianças da nossa escola. E em nenhum momento os alunos correram risco com ele.

Meu desejo de ajudar sua esposa e filho, convidando-os para treinar na minha academia, levou a uma má decisão de tê-lo na escola enquanto eles estavam treinando. Ele também treinava em particular, a portas fechadas, com nossos membros adultos, de vez em quando. Isso foi um erro e assumo total responsabilidade por permitir que ele entrasse em minha escola. O que eu deveria ter feito era convidar sua esposa e filho para treinar, mas não permitir que ele entrasse na VRMA de forma alguma. Cortei completamente os laços com Marcel e ele não vai à minha academia há vários meses. Se o envolvimento de Marcel com minha escola causou qualquer dor adicional à vítima ou sua família, ofendeu alguém, ofereço minhas sinceras desculpas”.

A TATAME procurou Marcel Gonçalves, mas não obteve nenhum meio para falar com o lutador. Informamos que seguiremos em busca de estabelecer contato, para que ele possa apresentar suas versões da história.

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