Risco x consequência: Fábio Gurgel analisa momento de pandemia, cita importância da prevenção e faz paralelo com Jiu-Jitsu; veja

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Um dos nomes mais respeitados no cenário do Jiu-Jitsu, Fábio Gurgel segue atento ao avanço ao novo coronavírus, classificado como pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e que, até o momento, já infectou mais de 8 milhões pessoas e matou outras 445 mil pelo mundo.

Em seu site oficial – ou nas redes sociais -, o “General” da Alliance vem atualizando os fãs e praticantes da arte suave sobre o tema.  E depois de informar sobre os cuidados básicos e ressaltar a importância de, mesmo durante o isolamento (em casa), manter uma rotina e fazer dela a melhor possível, desta vez Gurgel falou sobre a relação entre “risco x consequência”, fazendo um paralelo com o momento atual.

Confira o texto na íntegra:

Há algum tempo, ouvi a pergunta: ‘qual é a diferença entre risco e consequência?’ Confesso que tive dificuldade em responder, pois mesmo tendo vivido no meio do esporte lidando com adrenalina, derrotas, vitórias, alegrias, tristezas, ansiedade, nervosismo, confiança ou a falta dela, nunca tinha parado para pensar na pergunta isoladamente.

Gosto de praticar o exercício estoico de estar focado nas coisas que posso controlar e pouco me preocupar com as coisas que não posso, isso é um exercício diário, e claro, nem sempre eu consigo, mas como tudo na vida é treino, sigo praticando com afinco e posso sentir minha evolução.

Quando levamos esse conceito para nossos desafios, ele se torna ainda mais importante. Façamos uma analogia com uma luta de Jiu-Jitsu. Qual é a melhor chance de você vencer uma luta? Provavelmente colocando seu adversário em seu jogo, tentando induzi-lo ao erro e capitalizando em cima desse erro. Usando sua melhor técnica para finalizá-lo, estou correto?

Hora, se preciso trazer ele para o meu jogo, isso implica que eu tenho que tomar a ação, e isso está em meu controle. As reações do meu adversário começam a ser mais previsíveis quando ele reage a algo que eu conheço e, novamente, depende de mim saber conectar a próxima técnica e levar a luta e suas conexões sob meu controle até o final.

Coisas que estão sob seu controle precisam gerar ações e isso gera consequências para novas ações em seu controle. Seu foco deve ser apenas esse, pois isso fará você minimizar os riscos. Eles existem? Conceitualmente, o risco é composto por probabilidade e consequência. Quanto mais você treina, mais você conhece os perigos e consegue se preparar para lidar com eles, minimizando os riscos.

Assisti um documentário de um escalador, Alex Honnold. Ele faz uma modalidade chamado ‘free solo’, que significa escalar montanhas sozinho, e o mais surpreendente, sem nenhum tipo de equipamento. Nesse documentário, ele desafia a mais assustadora montanha de Yosemite nos EUA, um paredão vertical. Os poucos escaladores que já conseguiram completar o trajeto o fizeram com equipamento e demoraram 30 horas.

Alex define uma rota, estuda minuciosamente o trajeto, treina cada trecho, cada pegada, separa todas as fases da subida, treina exaustivamente a técnica em cada estágio, memoriza todas pegadas e todas as fendas do caminho, treina, treina e treina, até o ponto onde masteriza cada movimento.

Um outro aspecto trabalhado com intensidade é a concentração, imprescindível para um desafio como esse, focado na técnica ele exercita a limpeza dos pensamentos, controla a respiração e se conecta com a montanha e com a missão de conquistá-la. O que a maioria vê como adversário, ele enxerga como apenas um obstáculo necessário para seu objetivo. Frequentemente questionado sobre o risco de morrer por jornalistas e fãs em geral, Alex explicava de forma muito clara, conceitualmente, o perigo: ‘errar a técnica’.

Como o risco é probabilidade x consequência, se ele treina muito, a probabilidade de errar é baixa, baixando o risco. Essa explicação me fez refletir e enxergar com muito mais clareza essa diferença. Vamos analisar o momento em que estamos vivendo onde as pessoas estão se dividindo em dois grupos: as que não acreditam no risco e as que morrem de medo da consequência.

Analisemos outros fatos para criar uma correlação: 1.35 milhões de pessoas morrem todos os anos de acidentes de automóvel (dados da OMS), mesmo com regras de segurança e equipamentos nos veículos que ajudam muito a minimizar o problema. Os números são assustadores, mas você deixa de pegar seu carro e dirigir por isso? Ou pior, deixa de entrar no carro com outra pessoa dirigindo?

Provavelmente, não. Embora você saiba que existe o risco, entende que é razoavelmente controlado e que, mesmo que aconteça uma batida, ainda assim, ela ainda tem um índice baixo de te causar um dano sério, por mais que a consequência de uma batida em alta velocidade possa ser fatal.

No Brasil, existem mais de 60.000 assassinatos por ano, um número vergonhoso e assustador, e você mesmo sabendo disso, deixa de sair de casa para ir trabalhar ou se divertir? Provavelmente, não, pois você entende que tomando medidas de segurança pode minimizar a probabilidade de acontecer algo, reduzindo os riscos e não se preocupar tanto com a consequência.

Se olharmos para o atual momento de pandemia mundial causado pela Covid-19, veremos também um número assustador de mortes, e isso nos traz insegurança e medo. Olhando um pouco mais para as estatísticas, entendo que o risco é controlável, e como com relação à violência ou aos acidentes automobilísticos, se tomarmos medidas de prevenção e segurança, podemos levar nossa vida “normalmente” e conviver com o risco que o vírus nos impõe.

O que podemos controlar? Nossa saúde, o que ingerimos e que pode fortalecer nosso sistema imunológico, fazer atividade física, trabalhar nossa mente para pensamentos positivos. Sair do quadro de ansiedade e preocupação que estão normalmente ligados a fatores fora de nosso controle e que são responsáveis por nossos medos e inseguranças.

Podemos voltar para o início do texto e fazer novamente o paralelo com o Jiu-Jitsu e a luta. Nossa ansiedade e nervosismo pré-competição sempre estão ligados a essa ansiedade e movimentos que não nos cabe controlar. Ser saudável é, sem dúvida, a melhor defesa contra o vírus e isso está na maioria dos casos em seu controle.

As pessoas que carregam alguma doença pré-existente ou são mais vulneráveis devem, sim, ser cuidadas com muita atenção e talvez se manter em isolamento por mais tempo até que tenhamos uma vacina ou que o vírus não esteja mais entre nós, o que pode levar um bom tempo. Mas se você não está nessa faixa, é jovem, saudável e produtivo, não se deixe vencer pela consequência e concentre-se em trabalhar na prevenção e em conviver melhor com esse risco. E se fizer sentido para você, viva. Afinal, não sabemos o dia de amanhã e precisamos viver o presente como se apresenta.

Forte abraço,
Fábio Gurgel

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