Coluna Treinamento Desportivo: entenda um perfil físico, metabólico e perceptivo sobre desempenho no BJJ

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Atualmente, nos esportes individuais, é cada vez mais presente a importância da preparação física e do desenvolvimento de todas as capacidades físicas ligadas à modalidade. Devido à globalização, o acesso à informação técnica está cada vez mais presente e disponível para todos. Além disso, a disseminação por intermédio dos intercâmbios faz com que técnicas e conhecimentos que antes eram guardados a sete-chaves, por exemplo, hoje sejam conhecidos por toda a comunidade esportiva. Portanto, uma das formas de se obter determinada vantagem competitiva e garantir um diferencial perante um combate é a otimização do maior número de capacidades físicas possíveis.

O Brazilian Jiu-Jitsu (BJJ) é caracterizado como uma modalidade de combate que apresenta fundamentos técnicos como projeções, imobilizações, chaves em alavancas, torções e estrangulamentos para submeter seu oponente à finalização ou desistência, com uso de intensa demanda de esforço em pegadas no quimono. Independentemente do momento ou da técnica utilizada, há a presença de grande atividade contrátil dos músculos flexores do punho. Diante disso, é recomendado fortemente que lutadores de BJJ apresentem elevada força de preensão manual quando comparados a outras modalidades de luta agarrada, tais como Judô ou Aikido. As competições de BJJ são organizadas de acordo com o sexo, idade, massa corporal e graduação. Entre os adultos, uma luta oficial, segundo a IBJJF (Federação Internacional de Jiu-Jitsu), varia entre cinco minutos (para lutadores faixa-branca) e 10 minutos (lutadores faixa-preta)

Devido aos diferentes tempos, tipos de estilo de jogo (passador ou guardeiro, por exemplo), sexo, e até mesmo tempo de prática em competição, compreender o desempenho físico de cada lutador pode ser algo um tanto quanto complicado. Além do que, atualmente, ainda não é um consenso entre todos os lutadores de BJJ, o uso contínuo da preparação física como instrumento da melhora do desempenho. Portanto, é extremamente necessário a compreensão dos diferentes sistemas energéticos (oxidativo, glicolítico e ATP-CP) e o papel que cada um deles apresenta ao longo de uma periodização pré-competitiva (início do ciclo – fase geral) e pré-competição (polimento e adequação do peso à categoria).

Em suma, é extremamente relevante o devido entendimento sobre quais capacidades físicas (flexibilidade, força muscular, potência e resistência) devem ser priorizadas ao longo do ciclo preparatório. E quais seriam os melhores momentos para tal? Para isso, há uma necessidade de integração entre preparadores físicos, mestres, nutricionistas, médicos e fisioterapeutas, além do devido conhecimento por parte de todos sobre a ampla complexidade que demanda a modalidade esportiva. Diante disto, este texto tem como objetivo orientar todo e qualquer profissional da área de saúde, seja ele direto ou indireto sobre o ponto de vista científico acerca da modalidade Jiu-Jitsu. Este artigo será dividido em duas partes. 

Parte I – Perfil físico, metabólico, perceptivo e desempenho das lutas

Parte II – Lesões e perda de peso pré-competição

1- Perfil físico dos atletas

Uma característica pouco explorada na prática das academias, mas que apresenta grande relevância científica, é o perfil somatotípico. Ele apresenta grande relação na capacidade de determinar qual seria a melhor categoria de peso diante da composição das estruturas óssea e muscular do atleta. Lutadores de alto nível apresentam somatótipos com componente mesomórfico predominante e baixa gordura corporal (7–14%), o que é um fator a ser considerado, pois, em modalidades divididas por classe de peso, a presença de gordura corporal tem relação negativa com a parte física e de tarefas em desempenho (figura 1).

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Sobre o consumo máximo de oxigênio, que reflete a aptidão aeróbia, são encontrados valores de VO2 entre 43 a 49 ml / kg / min. Tais valores proporcionam aos atletas sustentarem o alto nível de intensidade intermitente ao longo das lutas, além de promover uma melhor recuperação entre as lutas (figura 2).

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Os combates de BJJ apresentam alto desgaste físico de força e resistência de preensão manual do antebraço, pois para o desenvolvimento das lutas, decorre grande esforço diante dos ataques e contra-ataques com agarramento no quimono do oponente.

Tudo isso com a intenção de controlar ou colocar o seu oponente em situação que seja possível a aplicação de técnicas que levem a submissão ou finalização. Com isso, atletas de alto nível apresentam valores de 48-57 kgf no dinamômetro de preensão manual, 54-42s de suspensão estática no teste isométrico, segurando um quimono, e 15-18 repetições no teste dinâmico segurando um quimono (figura 3).

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No que se refere às capacidades físicas derivadas da grandeza força (muscular máxima e potência muscular) estimular tais capacidades é altamente relevante entre atletas profissionais, pois são componentes primordiais durante os ataques, contra-ataques e defesas. Para força muscular dinâmica, são observados entre atletas valores relativos de uma repetição máxima (1RM) de 1,27-1,48 kg / kg de peso corporal no movimento do supino reto com barra (figura 4) e 1,20-1,38 kg / kg de peso corporal no agachamento livre com barra. Na potência muscular, são observados valores de 34-41 cm no salto. 

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A flexibilidade também é um componente imprescindível durante ataques ou permitindo defesas em guarda , e são observados entre os atletas valores de 35-43 cm no teste de sentar-se e alcançar² (figura 5).

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Respostas metabólicas, físicas e perceptivas das partidas

As lutas de Brazilian Jiu-Jitsu são caracterizadas por apresentarem ações intermitentes, oscilando entre esforços de 120 segundos e pausa de 20 segundos demonstrados por uma relação de 4:1 a 13:1 ao longo de um combate. São observados blocos de ações em alta intensidade 2–5 segundos, alternado por 20-30 segundos em baixa intensidade. O devido entendimento dessas relações (esforço/pausa) permite aos treinadores determinar com uma melhor eficiência sobre qual seria a melhor via de ativação (oxidativo, glicolítico e ATP-CP) ao longo dos treinos, pois essas relações temporais (esforço/pausa) são características da via glicolítica de moderada a alta (~ 10 mmol/L de lactato após um combate), e manter essas ações de modo repetitivo estão associadas ao aumento dos marcadores de dano celular (creatina quinase, aspartato aminotransferase, alanina aminotransferase, creatinina, etc) do atleta. 

Desempenho físico dos atletas de Jiu-Jitsu

De forma simples, e cada vez mais comum o uso da força de preensão manual como método de mensuração do desempenho (vitória/derrota) vem aumentando no corpo literário. A literatura científica reporta que a força de preensão manual sofre uma redução após os combates, no entanto, o efeito sobre as lutas na capacidade física (potência dos membros inferiores), ainda não está claro, pois apresenta grande divergência entre os resultados. 

Outro método que vem crescendo dentro dos centros de treinamento, são as escalas perceptuais, tais como esforço percebido, a exemplo: a escala de Borg (figura 6). Esta escala permite mensurar de forma clara e simplificada o esforço autorrelatado pelo atleta durante uma sessão de treino ou até mesmo após uma competição. O seu uso no contexto dos esportes com efeitos no monitoramento da carga interna e externa vem crescendo tanto nos esportes individuais quanto coletivos. Em estudos recentes com o uso da escala de Borg (6-20), atletas classificaram as lutas como difíceis, além disso, é reportado que o bíceps braquial, antebraços, punhos e dedos são as áreas de maior concentração de fadiga localizada

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Visto a complexidade da preparação física de atletas de Brazilian Jiu-Jitsu, seus gastos energéticos nas diferentes fases da preparação ou até mesmo em períodos de competição, nota-se a importância de estabelecer uma coesão entre mestres, preparadores físicos e demais profissionais responsáveis pela performance como um todo. Entretanto, a aplicabilidade do conhecimento científico pode ser simplificada, como fica claro na utilização da escala de Borg, porém, essa escala não funciona sozinha, e na segunda parte deste artigo falaremos ainda mais sobre esse conjunto que compõe a vida de um atleta vencedor.

Autor e filiação: Carlos Alves. Laboratório de Psicologia do Esporte e Exercício (LAPE), Universidade do Estado de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil

Referências:

  1. International Brazilian Jiu-Jitsu Federation (IBJJF). IBJJF Rule Book (v5.1). May 10, 2020 https://ibjjf.com/rules/
  2. Andreato LV, Lara FJD, Andrade A, et al. Physical and physiological profiles of Brazilian jiu-jitsu athletes: a systematic review. Sports Med Open. 2017;3(1):9.
  3. Andreato LV, Bruno Follmer B, Celidonio CL, et al. Brazilian jiu-jitsu combat among different categories: time-motion and physiology. A systematic review. Strength Cond J. 2014; 38(4):44–54.
  4. da Silva Gasparotto, G., Junior, E. M. D. S. L., Alves, R. C., dos Santos Junior, R. B., Bueno, J. C. A., & de Souza Junior, T. P. Força de preensão manual em atletas de jiu-jitsu brasileiro: estudo comparativo entre graduações. Cinergis, 2015;14(3).
  5. Cabral, L. L., Nakamura, F. Y., Stefanello, J. M., Pessoa, L. C., Smirmaul, B. P., & Pereira, G. (2020). Initial validity and reliability of the Portuguese Borg rating of perceived exertion 6-20 scale. Measurement in Physical Education and Exercise Science24(2), 103-114.

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